Uma Questão de Perspectiva

Às vezes, não há nada como calçar as botas alheias para perceber situações alheias ao nosso relativamente confortável quotidiano. Reparai nos seguintes mapas. Como reagiríeis a um processo colonizador desta dimensão? Da minha parte, vos garanto, lançaria todos os rockets, pedras, paus e tiros de caçadeira que tivesse à mão, a despeito dos protestos de pacifistas, “moderados”, e restante matilha equidistante.

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Liberdade para os palestinianos presos em Israel

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A morte do cidadão palestino Arafat Jaradat, ocorrida no passado dia 23 de Fevereiro nas cadeias israelitas, veio, uma vez mais, chamar a atenção da opinião pública para a situação dramática em que se encontram os prisioneiros palestinos nas prisões do Estado de Israel.

Ainda que as autoridades israelitas tenham, de início, alegado motivos cardíacos para a morte, a autópsia ao corpo de Arafat Jaradat, entretanto realizada no Instituto Nacional de Medicina Forense de Israel, na presença de um médico palestino e dois médicos israelitas, não só desmentiu por completo aquela alegação, como revelou a existência de extensos hematomas, ferimentos e lesões internas recentes que só podem ter sido provocados por práticas reiteradas de tortura e espancamento.

A tortura constitui um crime equivalente à qualificação de crime contra a humanidade, e a sua prática está proibida por inúmeros tratados e convenções internacionais, a começar pela Convenção das Nações Unidas contra a Tortura, adoptada pela Assembleia Geral da Onu em 10 de Dezembro de 1984, que Israel subscreveu em Outubro de 1991.

Na mesma ocasião em que se agrava dramaticamente o estado de saúde de alguns prisioneiros palestinos em consequência de períodos de greve de fome cada vez mais prolongados e progressivos – de entre os quais avulta o caso de Samer Tariq Issawi – o assassinato de Arafat Jaradat vem, uma vez mais, chamar a atenção do mundo para a condição dos prisioneiros palestinos nas cadeias israelitas e para a importância deste tema como expressão da violência, desumanidade e ilegalidade da ocupação que oprime o povo palestino.

Um relatório da UNICEF publicado nos últimos dias, conclui, a este propósito, que os maus-tratos às crianças palestinas pelo sistema de detenção militar israelita, além de muito difundidos, são sistemáticos e institucionalizados. Segundo dados da organização palestina de direitos humanos ADDAMEER, são 4812 os prisioneiros palestinos, dos quais 31 são crianças com menos de dezasseis anos.

Estão detidos em prisão administrativa – quer dizer, sem que contra eles tenha sido pronunciada qualquer acusação – cento e setenta e oito pessoas, das quais nove são deputados do Conselho Legislativo Palestino, constituído em consequência das eleições realizadas em Janeiro de 2006, que a comunidade internacional considerou livres e justas.

Vale a pena recordar, a este propósito, que em Maio de 2012, na sequência de um movimento generalizado de greve de fome entre os prisioneiros palestinos, o governo de Israel firmou um acordo com o comité de greve em que se comprometia, em particular, a não renovar as ordens de detenção administrativa dos cerca de 300 prisioneiros que estavam, à data, nessas condições.

Ainda de acordo com esse compromisso, Israel obrigava-se a pôr termo aos períodos de isolamento, e a autorizar, de novo, as visitas aos parentes em primeiro grau de prisioneiros oriundos da faixa de Gaza, assim como daqueles que, naturais da Margem Ocidental, estavam submetidos a medidas de segurança especiais.

Desde então e à semelhança de tantos outros compromissos não cumpridos por Israel, as autoridades de Israel desrespeitaram, de forma reiterada, as disposições daquele acordo, facto que levou muitos prisioneiros a retomarem o seu protesto na forma mais radical da greve de fome.

A condição dos presos palestinos nas cadeias israelitas não se resume, apenas, entretanto, a uma questão de direitos humanos. Ela reflecte, nas suas formas mais extremas, o quotidiano violento de opressão e humilhação a que está sujeito o povo palestino vítima da ocupação sionista.

Os homens, mulheres e crianças, encarcerados nas prisões do Estado de Israel, são presos de consciência, privados da sua liberdade pelo crime único de resistirem ao esmagamento da sua identidade, de defenderem a sua dignidade, e de manterem viva a bandeira da esperança na liberdade.

Nestes termos, as organizações signatárias condenam da forma mais veemente, o assassinato de Arafat Jaradat nas prisões israelitas, denunciam como ilegal, iníqua e desumana, a condição a que estão sujeitos os milhares de palestinos presos pelo estado de Israel, e reclamam a sua imediata e incondicional libertação, como elemento essencial e indissociável do reconhecimento do direito do povo palestino à autodeterminação, e à independência.

Deste modo, as organizações signatárias:

– Expressam a sua solidariedade com os presos políticos palestinos e, através deles, com todo o povo palestino vítima da ocupação israelita

– Reclamam dos órgãos de soberania portugueses uma intervenção firme e determinada, que responsabilize Israel pela situação dos presos políticos palestinos e que exija o cumprimento, por aquele estado, dos princípios e normas do direito internacional e humanitário a que está obrigado pela sua condição de membro das Nações Unidas

– Apelam à opinião pública portuguesa para que se mobilize na denúncia dos crimes da ocupação israelita e na afirmação da sua solidariedade com o povo e os presos políticos palestinos, pugnando pela sua libertação

– Decidem promover um acto público de solidariedade, dia 19 de Março, pelas 18h00, em Lisboa (do Miradouro de São Pedro de Alcântara ao Largo Camões).

Organizações subscritoras até o momento:

Associação de Intervenção Democrática

Colectivo Mumia Abu-Jamal

Comité Palestina

Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional

Conselho Português para a Paz e Cooperação

Ecolojovem “Os Verdes”

Federação Nacional Dos Professores

Federação Nacional dos Sindicatos do Trabalhadores em Função Públicas e Sociais

Interjovem – CGTP-IN

Juventude Comunista Portuguesa

Movimento Democrático de Mulheres

Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente

Partido Ecologista “Os Verdes”

Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local

União de Resistentes Anti-Fascistas Portugueses

União dos Sindicatos de Lisboa

Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal

Foto vencedora do World Press Photo 2013 evoca massacre de Gaza

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Esta é fotografia vencedora do World Press Photo 2013, da autoria de Paul Hensen. Nela figura o cortejo fúnebre de duas crianças palestinianas, de 2 e 3 anos, mortas em Novembro de 2012 por rockets israelitas.

Para uns, são os mais jovens mártires da heróica luta de libertação nacional palestiniana. Para outros, são meros danos colaterais da cruzada sionista.

Aos apoiantes dos “direitos” de Israel: ‘bora lá formar um Estado Cigano no noroeste da Índia?

Se aplicarmos a lógica sionista aos resultados desta investigação, faz todo o sentido, não é verdade?

Aliás, as diferentes comunidades ciganas europeias parecem compartir um leque muito maior de características comuns (genéticas, linguísticas, culturais, etc.) quando comparadas com as comunidades judaicas do pré-IIª Guerra Mundial, que eram unidas apenas por vínculos religiosos, nunca étnicos ou nacionais.

Fica a questão para os sionistas: vamos ser coerentes e defender a deportação/extermínio dos indianos nas zonas originárias da etnia cigana e fundar lá um Estado Cigano?

Conta-me como foi na Palestina

Tal como o imperialismo que o alimenta, o sionismo enfrenta uma crise profunda. Desde a derrota no Líbano em 2006, graças à heróica resistência do Hezbollah, passando pelo massacre em Gaza de 2008-2009, que mostrou ao mundo que o genocídio é a verdadeira face do sionismo, até à derrota infligida mais recentemente pelo Hamas e pela Jihad Islâmica, Israel encontra-se cada vez mais isolado no plano geopolítico, como a recente aceitação da Autoridade Palestiniana como membro observador não-estado na ONU demonstra, pese o seu carácter simbólico.

Ainda assim, não sendo eu a pessoa mais indicada para fazer uma análise deste fôlego, queria apenas partilhar este mapa. Que sirva para nos lembrar de onde Israel nasceu: da Nakba (“catástrofe” em árabe) de 1948, um processo sanguinário de limpeza étnica, deslocamento e extermínio de populações inteiras à ponta de metralhadora.

MapOfDestroyedVillagesA vermelho: localidades despovoadas

A verde: localidades existentes

Fonte: http://www.palestineremembered.com/Acre/Maps/Story572.html

Rostos da Resistência

Porque será que a cada dia que passa em Gaza, organizações como a Jihad Islâmica e o seu braço armado, as Brigadas Al-Quds, ganham força entre a população?

A direita mais ignorante, retrógrada e pró-sionista, responderia que os muçulmanos são um povo agressivo por natureza, que o Islão é uma religião violenta e os palestinianos, como que por uma “predisposição natural”, seriam atraídos para grupos políticos como a Jihad Islâmica.

A esquerda pacifista e politicamente correcta responderia com um silêncio incómodo sobre o louvável papel de resistência das organizações islamitas. Isto, se não caminhar pelo criminoso caminho da equidistância, o que as torna, objectivamente, cúmplices da ocupação sionista.

As potências ocidentais – EUA, Reino Unido e União Europeia – consideram tais organizações como terroristas, uma categorização que deriva tão somente do comprometimento das primeiras para com o projecto colonial sionista.

Mas, porque será a população de Gaza atraída para as fileiras da Jihad Islâmica? Se nos movimentarmos do terreno pantanoso da abstracção e da crítica puramente ideológica para o reino da realidade, rapidamente encontraremos a resposta. Porque a Jihad Islâmica, através das Brigadas Al-Quds, exerce um papel que é visto como um dever nacional entre os palestinianos de Gaza: a resistência armada ao ocupante sionista.

Durante a agressão israelita dos últimos dias, as Brigadas Al-Quds abateram um F-16 e um jeep militar israelita junto a uma zona fronteiriça, lançaram 620 rockets a partir de Gaza (40% do total), usaram mísseis antinavio e hackearam 5000 telemóveis de soldados do exército israelita. A facção da Frente Popular para a Libertação da Palestina – Comando Geral (FPLP-CG), por seu lado, explodiu um autocarro em Telavive.

Isto ao passo que a Autoridade Palestiniana deixa cair as reivindicações históricas da resistência palestiniana. Aqui está a raiz do sucesso da Jihad Islâmica.

Mas quem são estes resistentes? Nesta reportagem, Harry Fear dá-lhes um rosto e uma voz. A não perder.

Daqui a muitos anos, quando o pesadelo sionista tiver sido extirpado da Palestina, iremos voltar a ver imagens como esta e os defensores do “direito à autodefesa” de Israel deverão carregar o estigma da vergonha

Terá cedido o Sentidos Distintos a um discurso sensacionalista? Talvez. Vivo de consciência tranquila com isso, de qualquer forma. Já o mesmo não se pode dizer dos que até agora têm retratado o massacre de Gaza como uma “guerra” entre dois “agressores”. Aqueles que reiteram o direito do sionismo à “autodefesa” e demonizam a resistência palestiniana com o epíteto de terrorista. Aqueles que obviam a uma condenação clara do massacre sionista, mas não hesitam em condenar os rockets da resistência palestiniana.

Eu não concedo nenhum direito de Israel à autodefesa. Israel é uma colónia e uma colónia não pode defender o que nunca foi seu. Os palestinianos não fizeram outra coisa ao longo das últimas décadas senão defender o que é seu, seja sob a direção da OLP ou do Hamas. 

Obviamente que 60 anos de ocupação sionista criaram uma identidade israelita, uma “nação” israelita, se assim lhe podemos chamar. Mas caso os israelitas queiram viver em paz na Palestina, terão de abdicar dos seus privilégios de colonos, do seu estado ultra-militarizado, conceder o direito de retorno aos refugiados palestinianos – desde a Nakba de 1948 até agora – e aceitar viver como uma minoria num estado democrático, aconfessional e não-racista. Afinal, estados binacionais não são nada de propriamente inédito, ou estou errado?

Foto retirada do grupo Facebook da Comunidade Palestiniana da Finlândia.

Parece que é preciso repetir mais uma vez: o que se passa em Gaza não é uma guerra, é um MASSACRE!

Parece que é preciso repetir mais uma vez: o que se passa em Gaza não é uma guerra, é um MASSACRE!

Não  há dois exércitos em confronto, há sim um exército genocida,  apetrechado com o armamento mais sofisticado do mundo, que chacina uma população indefesa, a qual, por seu lado, retalia como pode.

A realidade no terreno cala o hipócrita e patético choradinho das “vítimas” israelitas. Ainda hoje lia num jornal finlandês, o Helsingin Sanomat, uma entrevista a uma família de Tel-Aviv, confortavelmente sentada numa esplanada (veja-se lá a “insegurança” que se vive em Israel, ao lado do inferno que cai sobre Gaza a cada minuto), a arrogar-se o estatuto de “vítima”, enquanto afirmava não perceber porque é que o exército israelita não bombardeava Gaza sem deixar pedra sobre pedra. Não há dois lados em conflito, há um agressor e um agredido.

Há que chamar os bois pelos nomes. Os campeões da “objectividade” e da equidistância não passam de cúmplices dos crimes de Israel. A minha posição não pode ser outra senão apoiar as acções de resistência palestiniana, sejam elas pacíficas ou militares. Bem sei que os israelitas não são todos iguais e grande parte deles condena o massacre. Mas deveriam também perceber que a única resolução possível para a Palestina não é uma paz podre e um estado palestiniano económica e territorialmente inviável. A única resolução definitiva seria a derrota incondicional de Israel e o desmantelamento do enclave colonial.  O resto é conversa.