Uma Questão de Perspectiva

Às vezes, não há nada como calçar as botas alheias para perceber situações alheias ao nosso relativamente confortável quotidiano. Reparai nos seguintes mapas. Como reagiríeis a um processo colonizador desta dimensão? Da minha parte, vos garanto, lançaria todos os rockets, pedras, paus e tiros de caçadeira que tivesse à mão, a despeito dos protestos de pacifistas, “moderados”, e restante matilha equidistante.

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Foto vencedora do World Press Photo 2013 evoca massacre de Gaza

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Esta é fotografia vencedora do World Press Photo 2013, da autoria de Paul Hensen. Nela figura o cortejo fúnebre de duas crianças palestinianas, de 2 e 3 anos, mortas em Novembro de 2012 por rockets israelitas.

Para uns, são os mais jovens mártires da heróica luta de libertação nacional palestiniana. Para outros, são meros danos colaterais da cruzada sionista.

Conta-me como foi na Palestina

Tal como o imperialismo que o alimenta, o sionismo enfrenta uma crise profunda. Desde a derrota no Líbano em 2006, graças à heróica resistência do Hezbollah, passando pelo massacre em Gaza de 2008-2009, que mostrou ao mundo que o genocídio é a verdadeira face do sionismo, até à derrota infligida mais recentemente pelo Hamas e pela Jihad Islâmica, Israel encontra-se cada vez mais isolado no plano geopolítico, como a recente aceitação da Autoridade Palestiniana como membro observador não-estado na ONU demonstra, pese o seu carácter simbólico.

Ainda assim, não sendo eu a pessoa mais indicada para fazer uma análise deste fôlego, queria apenas partilhar este mapa. Que sirva para nos lembrar de onde Israel nasceu: da Nakba (“catástrofe” em árabe) de 1948, um processo sanguinário de limpeza étnica, deslocamento e extermínio de populações inteiras à ponta de metralhadora.

MapOfDestroyedVillagesA vermelho: localidades despovoadas

A verde: localidades existentes

Fonte: http://www.palestineremembered.com/Acre/Maps/Story572.html

Rostos da Resistência

Porque será que a cada dia que passa em Gaza, organizações como a Jihad Islâmica e o seu braço armado, as Brigadas Al-Quds, ganham força entre a população?

A direita mais ignorante, retrógrada e pró-sionista, responderia que os muçulmanos são um povo agressivo por natureza, que o Islão é uma religião violenta e os palestinianos, como que por uma “predisposição natural”, seriam atraídos para grupos políticos como a Jihad Islâmica.

A esquerda pacifista e politicamente correcta responderia com um silêncio incómodo sobre o louvável papel de resistência das organizações islamitas. Isto, se não caminhar pelo criminoso caminho da equidistância, o que as torna, objectivamente, cúmplices da ocupação sionista.

As potências ocidentais – EUA, Reino Unido e União Europeia – consideram tais organizações como terroristas, uma categorização que deriva tão somente do comprometimento das primeiras para com o projecto colonial sionista.

Mas, porque será a população de Gaza atraída para as fileiras da Jihad Islâmica? Se nos movimentarmos do terreno pantanoso da abstracção e da crítica puramente ideológica para o reino da realidade, rapidamente encontraremos a resposta. Porque a Jihad Islâmica, através das Brigadas Al-Quds, exerce um papel que é visto como um dever nacional entre os palestinianos de Gaza: a resistência armada ao ocupante sionista.

Durante a agressão israelita dos últimos dias, as Brigadas Al-Quds abateram um F-16 e um jeep militar israelita junto a uma zona fronteiriça, lançaram 620 rockets a partir de Gaza (40% do total), usaram mísseis antinavio e hackearam 5000 telemóveis de soldados do exército israelita. A facção da Frente Popular para a Libertação da Palestina – Comando Geral (FPLP-CG), por seu lado, explodiu um autocarro em Telavive.

Isto ao passo que a Autoridade Palestiniana deixa cair as reivindicações históricas da resistência palestiniana. Aqui está a raiz do sucesso da Jihad Islâmica.

Mas quem são estes resistentes? Nesta reportagem, Harry Fear dá-lhes um rosto e uma voz. A não perder.

Daqui a muitos anos, quando o pesadelo sionista tiver sido extirpado da Palestina, iremos voltar a ver imagens como esta e os defensores do “direito à autodefesa” de Israel deverão carregar o estigma da vergonha

Terá cedido o Sentidos Distintos a um discurso sensacionalista? Talvez. Vivo de consciência tranquila com isso, de qualquer forma. Já o mesmo não se pode dizer dos que até agora têm retratado o massacre de Gaza como uma “guerra” entre dois “agressores”. Aqueles que reiteram o direito do sionismo à “autodefesa” e demonizam a resistência palestiniana com o epíteto de terrorista. Aqueles que obviam a uma condenação clara do massacre sionista, mas não hesitam em condenar os rockets da resistência palestiniana.

Eu não concedo nenhum direito de Israel à autodefesa. Israel é uma colónia e uma colónia não pode defender o que nunca foi seu. Os palestinianos não fizeram outra coisa ao longo das últimas décadas senão defender o que é seu, seja sob a direção da OLP ou do Hamas. 

Obviamente que 60 anos de ocupação sionista criaram uma identidade israelita, uma “nação” israelita, se assim lhe podemos chamar. Mas caso os israelitas queiram viver em paz na Palestina, terão de abdicar dos seus privilégios de colonos, do seu estado ultra-militarizado, conceder o direito de retorno aos refugiados palestinianos – desde a Nakba de 1948 até agora – e aceitar viver como uma minoria num estado democrático, aconfessional e não-racista. Afinal, estados binacionais não são nada de propriamente inédito, ou estou errado?

Foto retirada do grupo Facebook da Comunidade Palestiniana da Finlândia.

Concentração de Apoio a Gaza – Rossio (Lisboa), Terça-Feira, 20 de Novembro

“Na concentração de sábado passado (17/11) frente à Embaixada de Israel, foi pedido a todos os presentes que aderissem a uma concentração no Rossio, na terça-feira (amanhã) a partir das 15h, concentração essa que se prolongará por toda a tarde, de maneira que quem esteja a trabalhar possa lá ir depois de sair do trabalho.

Os bombardeamentos a Gaza resultaram até este momento em pelo menos 95 mortos, com mais cerca de 660 feridos. O Estado de Israel ignorou completamente as centenas de manifestações espalhadas pelo mundo inteiro que apelavam ao cessar fogo imediato. Continuaremos a exigir o fim da violência e da agressão do Estado de Israel.”

Parece que é preciso repetir mais uma vez: o que se passa em Gaza não é uma guerra, é um MASSACRE!

Parece que é preciso repetir mais uma vez: o que se passa em Gaza não é uma guerra, é um MASSACRE!

Não  há dois exércitos em confronto, há sim um exército genocida,  apetrechado com o armamento mais sofisticado do mundo, que chacina uma população indefesa, a qual, por seu lado, retalia como pode.

A realidade no terreno cala o hipócrita e patético choradinho das “vítimas” israelitas. Ainda hoje lia num jornal finlandês, o Helsingin Sanomat, uma entrevista a uma família de Tel-Aviv, confortavelmente sentada numa esplanada (veja-se lá a “insegurança” que se vive em Israel, ao lado do inferno que cai sobre Gaza a cada minuto), a arrogar-se o estatuto de “vítima”, enquanto afirmava não perceber porque é que o exército israelita não bombardeava Gaza sem deixar pedra sobre pedra. Não há dois lados em conflito, há um agressor e um agredido.

Há que chamar os bois pelos nomes. Os campeões da “objectividade” e da equidistância não passam de cúmplices dos crimes de Israel. A minha posição não pode ser outra senão apoiar as acções de resistência palestiniana, sejam elas pacíficas ou militares. Bem sei que os israelitas não são todos iguais e grande parte deles condena o massacre. Mas deveriam também perceber que a única resolução possível para a Palestina não é uma paz podre e um estado palestiniano económica e territorialmente inviável. A única resolução definitiva seria a derrota incondicional de Israel e o desmantelamento do enclave colonial.  O resto é conversa.