Rejeitar o memorando

cavaco+portas+passos

Estas duas últimas semanas mostaram aquilo que a política tem de mais artificial. Jogos de bastidores e de poder, discursos ocos, estratégias e ambições pessoais…e tudo isso revestido de um discurso cheio de soundbytes: salvação nacional, interesse nacional, compromisso, responsabilidade…etc. A República Portuguesa transformou-se nisto, uma burguesia económica e política que se está cagando para os problemas reais das pessoas, uma casta social que vive rodeada de privilégios que nos remontam aos tempos da monarquia. O memorando da troika não é mais do que um instrumento de reconfiguração social e económica que tem como único objectivo manter intactos os habituais interesses económicos e políticos, mesmo que para tal a democracia se torne num simples adereço.

Rejeitar o memorando da troika é o primeiro passo para a liberdade.

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Em democracia as soluções encontram-se a ouvir o povo

passos

O governo cairá em breve. É a crónica de uma morte anunciada.

Nos próximos dias muita gente irá comentar e argumentar sobre o que fazer a seguir.

O único desejo que tenho é que o poder não caia no colo de António José Seguro.

Precisamos de uma inversão total nas políticas. A receita deste governo só afundou ainda mais Portugal: aumentou a dívida, afundou a recessão, fez disparar o desemprego e a falência de empresas. Mas, pior do que tudo foi roubar-nos a confiança e a esperança num futuro melhor.

Em democracia as soluções encontram-se em eleições. Precisamos mais do que nunca de uma união à esquerda, uma esquerda que rejeite a austeridade e relance o investimento para gerar emprego e crescimento. Quanto aos credores externos, não temos outra solução senão dar um murro na mesa e dizer que já chega de sangrar a economia para pagar juros. A auditoria à dívida pública tem de avançar o quanto antes! Só com uma auditoria séria e transparente é que podemos ter um total conhecimento sobre a composição da dívida Certamente que mais negócios como os SWAP estão camuflados na dívida pública. Toda a dívida ilegítima deve ser anulada de imediato.

De seguida, a renegociação é incontornável. Ao longo deste percurso muitos acenarão com a saída do euro e, provavelmente, numa situação limite em que ambas as partes não cheguem a acordo, não teremos outra solução a não ser abandonar o Euro.

Não será um caminho fácil, mas a única certeza que temos é que o caminho que seguimos até hoje foi um falhanço total.

Chegou a hora de discutir, mas também de agregar forças contra a austeridade. Estou convencido que só é possível inverter o estado das coisas se realmente os partidos de esquerda forem capazes de agregar forças em torno de uma agenda com estes três pontos:

– Contra a austeridade;

– Em defesa do Estado Social;

– Pelo emprego e crescimento.

Não permitiremos!

Querem nos fazer esquecer de onde viemos, querem apagar da memória tudo o que demorou gerações a construir, querem nos forçar a acreditar que nada será como dantes, que a inevitabilidade será o pão nosso de cada dia.

Pois bem, a guerra em África também era inevitável, a ditadura também era inevitável, a censura, a PIDE, os presos políticos, a fome, a miséria tudo era inevitável…mas a inevitabilidade tem sempre duas faces.

Em Abril de 1974 o poder constituido foi destronado, como de uma inevitabilidade forçosa se tratasse.

A República Portuguesa há muito que está moribunda, corrompida e saqueada.

O que me alegra é que ainda existem outras Repúblicas, que teimam em resistir ao percurso que nos querem impôr. Mais importante que isso, promovem o pensamento livre, crítico, consciente e interventivo.  No meio de tanto lixo informativo e tanta cultura acrítica, funcionam como autênticos focos de resistência à hegemonização dos media e da propaganda do regime.

Créditos para a República do Bota-Abaixo (bem sabemos que este blogue não é isento nesta matéria…;) ) e também para todas as outras casas que continuam a ter um papel tão importante na construção do amanhã.

Estado de espírito

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Depois de ontem ter assistido em directo a mais um espectáculo degradante de propaganda política e de mais um passo em direcção ao abismo, não posso deixar de partilhar convosco um pouco daquilo que me vai na alma. Para isso nada melhor que citar uma das melhores músicas de sempre, que retrata sem rodeios muito do que novamente hoje está a acontecer em Portugal (com as devidas adaptações claro…).

Há momentos em que dá vontade de mandar tudo à merda! Este é um deles…

Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, desopila o fígado, arreda, T’arrenego Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe…” excerto do FMI, de José Mário Branco.

O governo que gostava de governar contra a constituição

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Hoje assistimos a mais um episódio do governo que todas as noites sonha com a sua revisão constitucional tamanho familiar. Ainda não foi ontem, nem será hoje, que a democracia será suspensa, para tristeza de alguns.

Pedro Passos Coelho mostrou hoje a sua face mais rasteira, vingativa e anti-democrática. Hoje esforçou-se para tentar mostrar a figura de um político que não erra e que está cheio de certezas, mas que no fundo está completamente desorientado. Para quem ouviu o discurso, e não tenha o mínimo de conhecimento sobre o passado recente de Portugal, certamente ficou com a ideia de que:

– Tudo estava a correr bem, recuperámos a credibilidade externa! Apesar da recessão, do crescimento brutal do desemprego, da quebra do consumo interno, da quebra de receitas fiscais e do aumento da dívida externa.

– Já tínhamos conseguido antecipar o regresso aos mercados e os credores externos andavam bastante satisfeitos connosco.

– Tudo estava a correr dentro do planeado e a curto prazo Portugal ia entrar numa curva de crescimento.

Passos Coelho decidiu apontar o Tribunal Constitucional como o mau da fita, tratá-lo como um agente do terreno político, um agente da oposição e por fim como o verdadeiro responsável pelo terramoto político que se avizinha. Pedro Passos Coelho fez aquilo que os governos fazem em países onde a democracia não é mais do que uma palavra oca, mostrar desprezo pela justiça e pela constituição.

Pedro Passos Colho e os membros do governo demonstraram que não passam de um bando de cobardolas, que não têm a coragem política de assumir que seguiram o caminho errado.

Alguém que explique aos membros do governo, como se fossem crianças de 5 anos, que:
– a Constituição da República não pode simplesmente ser suspensa quando convém a alguém;
– o Tribunal Constitucional não é um fantoche ao serviço do governo;
– o Tribunal Constitucional não tem de opinar ou decidir com base naquilo que o governo acha que é o “interesse nacional”;
– não é a constituição que tem de se adaptar à política governamental, mas sim o governo que tem de governar no enquadramento que a CRP lhe permite.

O Governo e o Presidente da República estão encurralados, o governo porque já vai no 2º orçamento inconstitucional e o Presidente porque promulgou ambos, e como qualquer “animal ferido” irão retaliar. Passos Coelho já deixou hoje a ameaça que irá atacar a Saúde, Educação e Segurança Social – o coração do Estado Social.

O caminho nunca poderá ser esse, como os factos recentes o têm demonstrado. Austeridade conduz a desemprego, recessão, empobrecimento e crescimento da dívida.

Mais do que nunca, Cavaco e Passos são as duas faces da mesma moeda. Obviamente, demissão já!

Chegou a hora de largarem a teta

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Com a especial chancela do nosso (infelizmente ainda) Presidente da República Cavaco Silva, o actual governo elaborou, até à data, dois orçamentos de estado que violam a constituição.

Portanto, falamos de uma eficácia de 100% no que toca a governar contra a constituição.

Se o primeiro ainda “escapou” devido a uma decisão política do Tribunal Constitucional, porque não exigiu que as normas inconstitucionais do orçamento de 2012 fossem imediatamente anuladas, desta vez não há saída para o governo a não ser a de reformular o orçamento de estado para 2013.

Pode-se claramente afirmar que foi uma enorme derrota, mais uma, para o governo e para Cavaco Silva.

No entanto, a sede de mais austeridade não ficará por aqui. Os comentadores de serviço (ou melhor dizendo, os comentadores ao serviço…) já dizem que a solução pode estar no corte dos subsídios de férias aos funcionários públicos e privados, ou uma sobretaxa no subsídio de natal. Enfim, nada de novo…

Com este governo nunca haverá qualquer outra política a não ser a da austeridade e do empobrecimento. Nunca haverá futuro para além da austeridade.

O único caminho passa pela auditoria e renegociação imediata da dívida (a nível de juros e moratória), cancelamento de juros usurários, cancelamento da dívida que seja ilegítima e um claro plano para a criação de emprego e retoma da economia. Parece-me cada vez mais difícil fazê-lo no cenário actual da Zona Euro e, como tal, o debate sobre a saída, ou não, da moeda euro é uma urgência nacional.

Não acredito que o governo se demita, não acredito que Cavaco demita o governo e não acredito que o CDS não faça outra coisa senão continuar agarrado ao pote. Não acredito que António José Seguro e o PS sejam capazes de nos oferecer outra coisa senão uma austeridade mais “humanitária”, como François Hollande está a fazer em França.

Não nos resta outra solução a não ser continuar a resistir, recusar a austeridade e o empobrecimento forçado, rejeitar continuar a viver sem perspectivas de um futuro digno! Gritar “Demissão Já!”, continuará a ser um imperativo!