Ofensa?

Ora, parece que uma pessoa foi presa por mandar o “nosso” presidente ir trabalhar.

Melhor assim do que chamar-lhe palhaço. Porque ser palhaço é uma profissão que dá trabalho, e bastante. E como eu respeito a capacidade que algumas pessoas têm (e os palhaços, por definição) de roubar sorrisos a quem está mal disposto.
Ora, o “nosso” presidente não têm essa capacidade. Arranca-nos esgares, é certo. Mas de asco, indignação e desespero pelo rumo que não trava num país que, infelizmente, o elegeu como máxima figura. Já com mandá-lo trabalhar concordo. E parece-me também que é subjectiva esta coisa da ofensa. Se é opinião de um que o outro não trabalha, então que o diga. Sobretudo quando o segundo é funcionário do primeiro. Ou não é assim? Para mim, é.

Insulto maior do que mandar alguém trabalhar é comer pão de ló e pedir à ralé que se contente com a carcaça de
anteontem. Se o mundo fosse perfeito, havia muito boa gente com calotes de 1300€. Do “nosso” presidente.

Cerrar fileiras

Não chega já de endeusamentos vs. crucificações? Hoje, como ontem, o facebook vai continuar a ser meio de transmissão das mais variadas ideias sobre o Martim e a Raquel e a sua participação no Prós e Contras, que serão tão mais populares quanto mais viscerais e extremadas. Não chega já? O Martim teve uma ideia e pô-la em prática. Não teve talvez ninguém ainda que pensasse com ele nas questões que rodeiam todos os aspectos do negócio que criou (a sua sustentabilidade, por exemplo). E, no entanto, o Martim já foi empurrado, e continua a ser louvado e endeusado por um dos lados de uma barricada que a cada momento se afasta mais da oposta.

Que bom que há quem tenha ideias e as ponha em prática. Por mais que isso desgoste aqueles que tremem ao ouvir a palavra “empreendedorismo”, isso é desejável e as ideias podem, de facto, tornar-se empresas, que criam postos de trabalho. O problema não é criar trabalho, o problema é como se cria trabalho. Provavelmente, o Martim ainda não tinha pensado nisso. Provavelmente, agora, louvado que está o seu argumento (proferido aos 16 anos no calor de uma discussão em directo num programam de televisão), não vai mais pensar no assunto. Mais preocupante do que o Martim dizer aos 16 anos uma frase como “mais vale o salário mínimo do que estar desempregado” é haver pessoas adultas a aplaudir esta ideia. Mostra que a exigência está ao nível do chão e que estamos, como povo, dispostos a continuara a comer e calar.

Não me parece que precisemos de combater os Martins que por aí andam a ter ideias e a pô-las em prática. Do que precisamos, urgentemente, é elevar a qualidade do debate e combater o raciocínio simplista que continua a ter todo o  tempo de antena que quer e que transmite a ideia de que o gigante problema do desemprego é culpa das pessoas que não são empreendedoras. É baseado neste discurso simplista que o governo de Passos Coelho vê o desemprego (dos outros) como uma oportunidade e, consequentemente, se demite de o tentar resolver.

A sério, é mesmo o Martim que nós queremos ver a milhas?

Mais uma com interpretações artísticas da Constituição

Parece que pegou esta coisa de qualquer um tecer interpretações sobre a Constituição, qual obra de arte para a qual cada um olha com os seus próprios olhos e gosta ou não aprecia. Que a educação e a saúde “são direitos que a constituição garante sob reserva do possível” é o que diz esta senhora. E acrescenta, como que a dizer que os fins justificam os meios, “Temos de ser capazes de fazer o caminho que tivermos de fazer, nunca esquecendo que há pessoas que têm sempre de ser apoiadas. Isto é verdade na educação, na saúde, nas pensões e nos apoios sociais”.

A lógica da caridade a governar o nosso país.

A propósito de declarações como estas, dou por mim, novamente, a pensar na lógica que os governos adoptam para servir as populações. (Servir, sim; e não servir-se delas.) Estou num país, a Suécia, onde as pré-escolas têm um/a monitor/a para cada quatro ou cinco crianças; onde todas as crianças têm direito a ter aulas na sua língua materna; onde a educação é completamente gratuita, desde o ensino básico até à universidade e onde a taxa máxima que se paga numa pré-escola é pouco mais de 100€ (quando o salário médio ronda os 2000€). É lucrativo? Certamente não será. Mas é o lucro que deve guiar as escolhas de um país? Devemos pensar com o “rentável” à frente de tudo o resto? E, no entanto, há emprego, todos têm acesso à educação e à saúde, a balança comercial é positiva, há dinheiro para a cultura e para as obras públicas…

São questões bem básicas, reconheço. Mas há alturas em que o discurso dominante é tão cheio de vícios e repetições, em que já caminhámos tanto no sentido inverso, que, infelizmente, é preciso voltar a pensar no básico. Ou, pelo menos, a sublinhá-lo.