Consumo político

 

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(Resposta/desabafo a um comentário que apontava a subida da extrema-direita na Grécia e no resto da Europa como uma das consequências da abstenção nas eleições.)

Portugal não é a Grécia, mas pode vir a ser, não me surpreenderia nada e a questão é mesmo essa. Combater em eleições a “inevitabilidade” (como disse o Renato) do voto dos idiotas parece-me, no mínimo, um exercício de entretenimento e – no limite – um desperdício de vida.

A abstenção ou o voto são evidentemente ferramentas de ação política, ainda que a sua eficácia seja questionável; não fosse aquela máxima anarquista “se o voto realmente contasse, seria proibido“. A questão aqui é que os dedos apontados à abstenção estão ao mesmo tempo a afunilar o campo político no acto do voto, encostando-nos à parede com uma chantagem do tipo “ei, é mau mas é o melhor que temos!”. E não é. Se eu tivesse de calcular, acho que rapidamente concluiria que o voto é das intervenções políticas menos importantes que poderíamos ter.

Como na imagem que colei ao post, há uma certa lógica de intervenção pública que vem à luz de vez em quando e que procura encerrar nos atos triviais do quotidiano uma espécie de consciência social apaziguadora. No caso da citação acima, defende-se uma “ética de consumo no mercado” que responsabiliza o zé-ninguém no acto de compra, sem pôr em causa os inner workings do mercado que – muito mais fortemente – ditam as práticas de consumo. Ao mesmo tempo, desresponsabiliza tanto o comprador como o serviço: se ativamente comprar roupa que não é feita por crianças numa fábrica qualquer de um país longínquo qualquer, estou a “contribuir”, e posso ir para casa descansado porque, da minha parte, está o papel cumprido; a empresa, por sua vez, apenas vende aquilo “que os clientes querem” e pode por isso lavar as suas mãos. A culpa é de quem não sabe comprar.

No caso da abstenção, paralelamente, defende-se uma “ética de consumo na política“, aqui responsabilizando o zé-ninguém no acto de voto. Da mesma forma, ficam desresponsabilizados o votante – ei, não fui eu que votei no Cavaco! – e os partidos – que só lá estão porque “a malta votou neles”. A culpa, aqui, é de quem não sabe votar, claro.

Não quero dizer que votar é inútil (eu costumo votar) nem que não devemos ter alguma ideia do que compramos no supermercado. A questão é que reduzir a intervenção política e social a estes actos fáceis é retirar-lhes análise e profundidade, porque eles não são dessa forma significativos, muito menos de igual forma para toda a gente. Muito menos tendo em conta a política real que se exerce quotidianamente e que tem um peso não mensurável em votos. Inclusivamente porque votar não é consciência – quando é que se vota por causa deste ou daquele plano eleitoral? Todos nós sabemos que os planos não valem porra nenhuma porque não podem valer, porque se um partido tivesse que cumprir à linha durante quatro anos aquilo que propõe, seria um desastre em termos práticos; ou seja, a eleição é uma mentira com a qual concordamos. Efectivamente, o acto de votar é um acto de esperança, um depósito simbólico de confiança e nesta bolha do vago e do supérfluo temos tanto o trabalhador consciente e informado a forçar a agenda do socialismo como o idiota que vai votar na direita porque uma família de guineenses se mudou para a casa vizinha.

É sabermos que por muitos chavões que atiremos ao ar, vai haver sempre um mercado para as t-shirts feitas por crianças e vai haver sempre idiotas a votar no PNR; e isto não acontece por falta de consciência (que consciência é que há num voto, mesmo? é só uma cruz num papel…) mas porque aquilo que traz estas realidades à superfície continua vivo e de boa saúde – e é essa a besta que devemos combater.

Com ou sem votos.

Já eu, vou tentar votar no próximo domingo, não sei bem em quê ainda.

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