Sobre a “unidade de esquerda”

O Miguel Tiago levanta aqui alguns pontos interessantes para o debate sobre a necessária unidade de esquerda. No entanto, na minha opinião, parte de pressupostos errados, que o levam, consequentemente, a conclusões erradas.

Sigamos a sua linha de argumentação.

 “Diz-se muitas vezes que a direita está unida e que a esquerda precisa do mesmo. Ora, então vejamos, PSD e CDS nunca precisaram de fazer coligações pré-eleitorais para governar, e quando as fizeram nem sempre ganharam. Além disso, importa dizer que a convergência da direita abrange o PS, como se viu nos últimos governos de Sócrates que aprovaram mais de 90% de todas as suas propostas com o voto favorável da direita.”

Não é por avançar em coligação ou não que a direita (incluo nesta categoria o PS, pois, ao contrário do Daniel Oliveira, avalio os partidos pelo que eles são e não pelo que eles dizem ser) é politicamente hegemónica na sociedade portuguesa. Tal deriva do facto de que a classe social que a direita representa detém a hegemonia económica; por outras palavras, detém os meios de produção, de troca e, não menos importante, os meios de comunicação e produção cultural. Neste caso, pode-se afirmar que o factor político (subjectivo) é secundário face ao económico (objectivo). Enquanto a burguesia dominar economicamente, irá dominar politicamente, se a classe trabalhadora não aproveitar as “janelas de oportunidade” (crises e processos revolucionários) para transformar esta realidade.

Depois, o que está em causa ao se aventar a palavra de ordem “unidade de esquerda” não é uma mera união de cúpulas, como Miguel Tiago sugere. A unidade de esquerda, ou melhor, a unidade da classe trabalhadora e das classes sociais intermédias, já se constrói no dia-a-dia; numa etapa em que assistimos aos maiores processos de mobilização popular desde o biénio 74-75. Já existe no terreno uma “convergência de massas na acção e unidade de classe”. Falta agora as direções políticas da classe trabalhadora consubstanciarem esse fenómeno no plano super-estrutural, para se passar da acção defensiva à acção ofensiva.

E, pelo menos no que me diz respeito, nunca falei numa dissolução dos programas políticos numa “união de partidos”, como afirma Miguel Tiago. O que se propõe com a exigência de uma frente unida de esquerda é a estruturação de uma convergência democrática em torno de um programa comum que responda às questões mais imediatas, salvaguardando as idiossincrasias de cada uma das componentes dessa frente. Logo, é óbvio que a frente unida de esquerda se trata de um instrumento e não um fim, como o nosso interlocutor insinua.

Miguel Tiago assevera a certo ponto que a “’esquerda’ é um conceito vago e móvel segundo o prisma”. Pois está claro, estamos completamente de acordo. Mas as palavras de ordem surgem num contexto, emergem para responder a situações concretas. A exigência de uma frente unida de esquerda não é uma exigência absoluta. Ela é válida na conjuntura actual e não em qualquer outro hipotético cenário do reino da especulação. E ela não nasce de um processo de mera teorização, mas da observação empírica da realidade. Já perdi conta ao número de vezes que, em conversa com trabalhadores e trabalhadoras, me disseram que se identificam com os programas do PCP e do BE, mas provavelmente irão votar PS porque não vislumbram qualquer possibilidade de aqueles partidos formarem governo separados. Se nem toda a gente é politicamente consciente o suficiente para saber que um governo do PS não iria fazer avançar nem um milímetro os interesses de quem trabalha, não posso deixar de compreender a impaciência daqueles trabalhadores e trabalhadoras que querem chutar Passos e Portas dali para fora o mais rápido possível.

Por último, volto a deixar aqui a velha questão: se tanto BE como PCP querem um “governo de esquerda”, como se concretiza essa reivindicação, sem ser através de uma coligação que tenha aqueles dois partidos como eixo estruturante, aliados à CGTP? Até hoje, sem contar com formulações abstractas sobre a “conquista de maiorias sociais”, etc., nenhum bloquista/comunista conseguiu responder satisfatoriamente a esta pergunta aparentemente tão simples.

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