Sobre Rui Tavares e o Partido Livre

livre

Sou um defensor acérrimo do direito à livre organização. Subscrevo de bom grado qualquer petição para fundar novas organizações partidárias, excluindo, obviamente, partidos de extrema-direita ou filo-fascistas. Se o Rui Tavares quisesse, até lhe concedia a minha assinatura para o auxiliar no processo de registo do seu partido. De forma a que este seja legalizado e, mais importante, se arrebate de uma vez por todas a máscara messiânica desta vaga de “independentes”, namorados pelo BE durante algum tempo, que se propõe a “moralizar” o funcionamento das instituições políticas portuguesas.

Um partido não se constrói com um punhado de celebridades e um rol de crónicas no Público. Para construir um partido que queira realmente constituir-se como alternativa é necessário um programa político claro e consistente (além de diferente dos demais partidos, bem entendido), um conjunto de quadros formados e experientes, e algum grau de inserção no tecido social, isto é, no seio das classes sociais que o partido almeja representar.

Quanto ao programa, Tavares diz-nos apenas que diverge do PS no tocante ao Tratado Orçamental Europeu e do BE relativamente a política europeia no geral. Afirma a matriz pró-UE do futuro partido, defendendo a “democracia europeia” (leia-se, a UE) como rota de saída da crise. Abstendo-me de comentar a incoerência de relacionar “democracia” com “UE”, ou em ver esta última como um antídoto à crise, não sei em que é que estas propostas divergem tanto da ala esquerda do PS ou da ala direita do BE. A verdade é que, entre a esquerda do PS e a direita do BE, não cabe nem uma folha de papel de enrolar tabaco. Respectivamente a quadros e inserção social, o evento de lançamento do partido foi esclarecedor. Trata-se de uma organização de meia-dúzia de celebridades, desavindas tanto com o BE como com o PS.

A verdade é que esta manobra de Tavares e companhia tem somente dois objectivos: primeiro, visto que nenhum dos partidos da esquerda quer apoiar uma personagem tão escorregadia como Tavares (lembre-se a rasteira que ele pregou ao BE), ele pretende lançar uma plataforma de apoio à sua candidatura ao Parlamento Europeu; em segundo lugar, montar uma estrutura eleitoral que sirva de muleta ao PS, segurando alguns votos que de outro modo poderiam fugir para a esquerda. Alimentando-se, consequentemente, ilusões num PS que nunca existiu; um PS “progressista”, anti-liberal. Em tal caso, até é bom o partido não ter bases, posto que, na eventualidade de uma aliança PS-Livre (acrónimo assustador), o segundo partido não sofreria pressão de baixo para romper com as políticas de austeridade que o PS inevitavelmente praticará assim que ponha os pés a S. Bento. Aliás, esta táctica de conciliação com o PS pode ser lida nas entrelinhas do discurso de Tavares, quando ele nos remete à necessidade de uma “convergência de esquerda”. Não é certamente da convergência necessária entre PCP, BE, sindicatos e movimentos sociais de que eles nos fala, a única convergência que poderá colocar em cheque as políticas da troika e possibilitar a formação de um governo de esquerda. Tavares afirma implicitamente que esta esquerda é, usando as suas palavras, “reacionária”. Ele fala-nos, isso sim, do estabelecimento de um consenso podre com o PS “progressista”, seja lá o que isso for, em torno dalgum programa de austeridade light.

P.S: Este texto foi redigido antes da publicação desta crónica do Nuno Ramos de Almeida, que também lança umas achegas interessantes ao tema. 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s