É possível debater Álvaro Cunhal?

Alvaro_Cunhal_by_Henrique_Matos_03A julgar pelas recentes quezílias no 5dias, é bastante difícil. Tal dificuldade já se verificou antes, quando Daniel Oliveira publicou um texto que lhe valeu as mais insultuosas invectivas por parte de inúmeros “cunhalistas”, na blogosfera e nas redes sociais.

A verdade é que, no imaginário colectivo do PCP, Cunhal é muito mais do que um dirigente histórico; é um ícone, para não dizer um mito. Ressalvo que o PCP tem todo o direito de consagrar a memória dos seus dirigentes mais importantes. Aliás, é bastante natural que o faça. Todos os colectivos políticos necessitam de referências teóricas, as quais muitas vezes adquirem um carácter simbólico. Como tal, se um busto de Lenine ou Trotsky representa para muitos as melhores tradições do marxismo revolucionário, uma imagem de Estaline simboliza para os mesmos os piores traços da degenerescência burocrática e do totalitarismo soviético. Álvaro Cunhal foi o dirigente mais preeminente do PCP, guiando o partido precisamente nos momentos mais difíceis da sua história. É apenas natural que este se aproprie da sua memória como referência histórica e teórica. E está para além da polémica o facto de que foi um dirigente político notável; para o  mal, dirão uns, ou para o bem, dirão outros.

No entanto, independentemente da nossa posição, o materialismo dialéctico obriga-nos a ter algum sangue iconoclasta nas veias. Ser leninista, a título de exemplo, implica fazer uso da herança teórica, dos métodos de análise e da práxis revolucionária de Lenine, mas nunca de forma dogmática, muito menos fomentando qualquer processo de mitificação. Veja-se como na ex-URSS, ao passo que se embalsamava reverentemente o corpo de Lenine, o seu legado político era desfigurado e o “marxismo-leninismo” transformado numa fórmula alquímica para legitimar os caprichos de uma burocracia estatal ascendente. Desse modo, uma análise crítica do passado é uma condição sine qua non para o delineamento de uma táctica e estratégia correctas no presente. Se isso implica derrubar alguns ícones, pois que se derrubem.

Não quero com isto insinuar que o PCP deva derrubar Cunhal do panteão de líderes históricos do partido, mas acho que, no mínimo, deve ter abertura para discutir criticamente a sua pessoa, o seu trabalho, o seu percurso político, inclusivamente com obstinados oponentes do seu legado. Não assisti ao congresso organizado pelo partido em seu nome, nem ao evento comemorativo do centenário do seu nascimento, logo, não pretendo somar a minha voz ao coro que denuncia um processo de “canonização” em curso. Agora, as reacções extremadas de determinados dirigentes e militantes do PCP face a toda e qualquer crítica a Cunhal dão sinais preocupantes. O tom crispado e quase irracional que o debate por vezes assume inibe qualquer um de participar no mesmo (salvem-se algumas excepções, já que houve, de facto, comunistas que aceitaram o repto e avançaram argumentos válidos para a discussão). E, faço notar, não comungo da opinião da Raquel Varela segundo a qual o debate se deve cingir ao meio académico. Bem pelo contrário, ele importa a toda a esquerda, a todo o movimento organizado dos trabalhadores.

Se, por um lado, adjectivar Cunhal como “santo” ou como “contra-revolucionário” no título de um artigo prefigura já uma diegese difícil, tal como a errónea acusação da delação de Franscisco Martins Rodrigues, a hipersensibilidade de alguns comunistas também não contribui nada para um debate saudável. Se concordamos que a unidade da esquerda é uma necessidade objectiva para derrubar o “austeritarismo” troikista, também me parece por demais evidente que essa unidade só poderá ser concretizada através de debates contínuos e polémicas acesas. É altura de nos irmos habituando, não?

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