Abaixo o protesto ritualizado

Para o movimento de protesto perseverar, para manter as pessoas na rua, é necessário conquistar algumas vitórias que elevem a moral das massas. Para conquistar vitórias, é necessário perseverar e radicalizar a luta.

Desde a manifestação de 15 de Setembro de 2012, a qual bloqueou as intencionadas alterações na TSU, que o movimento popular de protesto não ganha uma vitória palpável. A Greve Geral de Junho derrubou um par de ministros, incluindo o estratega do Governo, Vítor Gaspar, mas não apeou o próprio Governo (reivindicação central da greve) muito menos ditou o fim da austeridade.

A manifestação de ontem, ainda que reflectisse de forma truncada o descontentamento popular, estava derrotada à partida. Aliás, nasceu de uma derrota, posto que a CGTP, ao capitular perante os diktats de um Governo que ela própria diz ser ilegal, deu o pior sinal de fraqueza aos trabalhadores. Em nome da legalidade, acatou uma norma ilegal e perdeu uma excelente oportunidade de apressar a queda deste executivo.

Não quero agoirar, mas suspeito que isto continuará a acontecer enquanto tivermos direcções sindicais que, no contexto de uma agudização extrema dos conflitos de classe, continuem a perspectivar o protesto dentro de uns moldes ritualizados, institucionalizados, próprios de uma época passada, uma época de normalização das tensões interclassistas. A época do pacto social cujos pilares foram minados pela austeridade. Temos de nos livrar de direcções sindicais e políticas que achem que pode haver luta contra a austeridade sem uma confrontação com o Estado que a promove. 

A convocatória de uma concentração em frente à AR no dia de debate do OE-2014 é naturalmente bem-vinda. Melhor ainda seria a convocação de uma Greve Geral de 48 horas, com direito a manifestação em Lisboa. Mas de nada servem estes protestos se forem apenas para picar o ponto, sem levar a qualquer vitória, por muito relativa que seja, nem fazer avançar um passo a organização das massas ou apontar uma saída política para a situação que vivemos. Há que romper a rotina.

3 thoughts on “Abaixo o protesto ritualizado

  1. …às armas, às armas, contra os canhões marchar, marchar”!

    E o Povo, que às dezenas de milhar ontem saiu à rua, gritou e protestou, exigindo políticas que o salve do desastre e da miséria, reclamando pela demissão do governo de acéfalos psicopatas que o condena, na douta opinião de certos pseudo-revolucionários, devia antes ter enchido o bolso de pedras e, armado de fisgas, irromper ponte fora, enfrentando batalhões de policias armados e equipados para reprimir, espancar, prender, talvez matar!

    Isso sim, era acto revolucionário, era romper com os ” moldes ritualizados, institucionalizados”, a que a direcção da CGTP conduz as massas populares…

    Para revolucionarite aguda (ou crónica?) haverá cura?

    Oh! como imagino o supremo gozo que, em seus sofás, a tais revolucionários de pacotilha daria, se a CGTP, em acto de desprezível inconsciência política, se deixasse cair na provocação do governo, lançando em orgia de violência milhares de cidadãos, de todos os escalões etários!

    Pergunto, porque esta duvida atroz gostava de ver esclarecida: as revoluções anunciam-se?

    Pergunto ainda, partir montras, incendiar carros, cabeças fendidas à bastonada e esquadras de policia cheias de quem não consegue escapar à detenção, derruba governos?

    Valha-me a nossa senhora das angustias!!!

    • Não tente justificar com os ataques genéricos do costume contra os “pseudo-revolucionários” o injustificável.

      A CGTP vinha a tomar uma postura correcta, demonstrando uma vontade (vinda das suas bases) de radicalizar a luta, de dar um salto qualitativo no protesto, de mostrar a uma camada de activistas que a CGTP estava realmente disposta a liderar uma luta consequente, capaz de derrubar o governo. E estava (até ao dia do recuo) a mostrar a atitude correcta: aberta para falar sobre as questões de segurança da manif, mas mantendo-se firme na sua acção, pois sabia ter razão.

      Esse sentimento foi muito bem sentido nas semanas que antecederam a acção. Havia todos os indícios de que seria realmente um grande dia de protesto. A CGTP tinha tudo do seu lado: a lei, o apoio das suas bases e apoio popular. Pois também elas sabiam que a CGTP tinha razão.

      O recuo surpreendeu todos, incluindo uma camada muito significativa de activistas sindicais. Na medição de forças entre CGTP e governo, que esta vinha a ganhar, acabou por entregar a victória!

      Agora acha mesmo que o governo seria estúpido ao ponto de organizar um massacre contra uma acção que iria ser obviamente massiva? Acha mesmo que a CGTP não tem capacidade de impedir esse massacre? Um camarada da CGTP fez até uma boa sugestão quanto a isso. Bastaria à CGTP usar o seu prestigio, apelar em nome da Democracia e do direito de Manifestação para que uma série de personalidades da esquerda, de artistas a académicos, formasse um cordão na linha da frente, que impediria a policia de carregar.

      Mas a opção foi outra. A direcção da CGTP assustou-se. Mostrou fraqueza, e claramente isso viu-se ontem (em Lisboa), pois eu estive lá, como estou sempre e como estão pessoas como o Tiago. Essa dos “revolucionários de sofá” não justifica tudo, principalmente quando não se sabe com quem se fala.

    • Ia responder às angústias do Manuel, mas o Gonçalo antecipou-se e já disse o que havia a dizer. Ainda assim, sem entrar num tom melodramático (fisgas, pedras, prisões, mortes, o drama, o horror…) nem responder a essa acusação do “revolucionarismo de sofá”, pois de facto o Manuel não sabe com quem está a falar, permita-me trazê-lo de novo à realidade e fazer-lhe três perguntas: primeiro, acha que um Governo tão deslegitimado como este sobreviveria impunemente a uma carga policial sobre centenas de milhares de manifestantes desarmados? Em caso de resposta negativa, acha que ele cometeria suicídio? Terceiro, explique-me lá como é possível derrotar a austeridade sem medir forças com o regime que a sustenta?

      Por último, respondendo à sua pergunta: a revolução, com efeito, não se anuncia, até porque se dependermos de direções como a da CGTP ela nunca virá.

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