É mesmo necessário Começar de Novo

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“Apesar do desaire eleitoral, a cúpula bloquista “não vê qualquer razão” para pôr em causa a coordenação, a direcção ou a sua estratégia política”, diz-nos o Público.

Uma frase que facilmente introduziria um tratado sobre o autismo na política. A direcção bloquista, tão expedita a exigir (e bem!) consequências políticas do desaire eleitoral do PSD, exime-se a fazer o  mesmo relativamente a si própria. Semedo tem toda a razão quando diz que o enraizamento bloquista ao nível local é extremamente débil. Não tem é o discernimento para perceber que essa debilidade não deriva do “diferencial de 25 anos de implantação dos restantes partidos”, mas sim da própria estratégia que a cúpula do BE recusa alterar.

Em primeiro lugar, o BE não tem implantação local porque ao longo destes anos decidiu priorizar, quase exclusivamente, o trabalho parlamentar. Daí estarmos perante um fenómeno maioritariamente eleitoral/mediático, sem uma real implantação nos locais de trabalho e nas comunidades, muito menos uma base de massas. A influência que efectivamente exerce sobre a população trabalhadora, sectores da classe média e da juventude (que não é despicienda, note-se) advém tão somente do trabalho no Parlamento e do acesso aos media. Daí o peso esmagador que o Grupo Parlamentar exerce sobre o partido, muitas vezes atropelando as competências próprias dos seus órgãos constitutivos.

Em segundo lugar, desde 2011, aquando da deriva alegrista, que a estratégia do BE consiste em colar-se ao PS, tentando ganhar um eleitorado mais moderado, oriundo da classe média.  O problema é que nunca vai conseguir roubar esse eleitorado ao PS. Se eu tiver de escolher entre dois PS’s, viro-me obviamente para o verdadeiro, nunca para uma imitação rasca. Nos seus primeiros anos, quando ainda era uma plataforma viável para uma tentativa de refundação do campo anti-capitalista em Portugal, no contexto de descredibilização generalizada do projecto socialista após a queda da URSS, o BE cresceu porque conseguiu chegar a franjas que não se identificavam nem com o liberalismo do PS nem com a tradição estalinista do PCP. Franjas que hoje, provavelmente na sua maioria, votam em branco ou nem votam. Se seguisse a táctica actual desde a sua fundação, o BE nunca seria o que é hoje.

O BE, se realmente quisesse ser uma alternativa à austeridade e ao capitalismo, apontaria a mira para os quase 50% de pessoas que se abstêm. Ao contrário da maioria dos políticos e comentadores, que não raras vezes menosprezam a abstenção e a estigmatizam como se de mera “falta de civismo” se tratasse, eu retiro conclusões bem políticas da recusa massiva em participar no acto eleitoral. Traduz a desconfiança popular face a um regime democrático-liberal que não correspondeu às expectativas criadas no período revolucionário de 1974-75, e face a direcções partidárias cada vez mais divorciadas da realidade quotidiana e dos anseios das massas. Direcções políticas receosas de avançar para lá deste regime e deste sistema económico absolutamente irracional, destrutivo e caótico. Não votar, quer se goste quer não, pode ser um acto político. E é-o muitas vezes.

Mas Semedo, que de alquimista passou a autista, é teimoso. Persiste nessa táctica, ao afirmar que “o Bloco continua disposto a entendimentos com o PS”. O “partido que vai à luta” metamorfoseou-se há uns anos na “esquerda responsável” e agora lá caminha no sentido de querer ser o adjuvante de um PS que nunca existiu: um PS anti-liberal e comprometido com os interesses dos trabalhadores. A persistir neste rumo, vai acabar sendo a muleta do PS real.

Infelizmente, isto só vai levar a uma coisa: à crescente insignificância política do BE. Houvessem outras alternativas passíveis de tomar o seu lugar e não perderia um minuto a preocupar-me com isto. O problema é que (ainda) não as há. É mesmo necessário Começar de Novo.

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