Rapidamente sobre a praxe

Durante os meus anos de estudante de Coimbra sempre rejeitei a praxe. Não me incomoda o barulho nem as humilhações nem as bebedeiras; incomoda-me profundamente o assumir-se como uma forma aceitável de integração aquela que parte da aceitação acrítica de regras arbitrárias e da ablação da identidade. De facto, eu tenho um nome, uma história e algumas ideias razoavelmente interessantes, não estou interessado em quem me julga segundo a capacidade de as ignorar em nome da repetição de frases-tipo e da submissão ao colectivo – não estou interessado, tampouco, em avaliar as pessoas dessa mesma forma.

Há uma luta justa a travar contra a praxe até porque muitas vezes esta transporta ideias proto (ou neo?) fascistas. Ao mesmo tempo, a praxe é fortemente desmobilizadora e infantilizante, sobretudo quando procura ser levada a sério. A luta anti-praxe é por isso uma luta política muito importante (a partir do meio universitário) e que diz muito de quem a assume.

No entanto, o que me incomoda mesmo é haver certas fatias da esquerda que vão lá não tanto por este lado politizado da crítica mas sim pela condenação moral; por um observável desprezo, umas vezes arrogante, outras vezes ignorante, em relação a determinados comportamentos… pela pura razão de condenar o comportamento em si. Vejamos:

O que vemos é uma sucessão de humilhações consentidas – ou toleradas por quem, estando fora do seu meio, não tem coragem de dizer que não. A boçalidade atinge níveis abjectos. Os gritos alarves , a exibição de simulações forçadas de atos sexuais, o exercício engraçadinho do poder arbitrário de quem, por uns dias, não conhece qualquer limite. Tudo isso impressiona quem tenha algum amor próprio e respeito pela sua autonomia, liberdade e dignidade. Mas a questão é mais profunda do que a susceptibilidade de cada um. É o que aquilo quer dizer.

Como o documentário não é um mero ato de voyeurismo, mostra-nos o outro lado. Como a esmagadora maioria dos caloiros se sente bem naquela pele. Porquê? Porque, como já disse, aquilo marca o início de um momento que julgam que mudará a sua vida. Mas, acima de tudo, porque os “integra”. E não se trata de uma mentira. De facto, naqueles rituais violentos e humilhantes, conhecem pessoas e sentem-se integrados num grupo. Eles são, naquele momento, rebaixados da mesma forma. Não há discriminações. São todos “paneleiros”, “putas”, “vermes”. Na sua passividade e obediência, não se distinguem. Até, quando deixarem de ser caloiros, terem direito à mesma “dignidade” de que gozam os que bondosamente os maltrataram. Aceitam. Porque, como escrevia Jean-Paul Sartre, “é sempre fácil obedecer quando se sonha comandar”.

Não somente me cheira a puritanismo como há, ao mesmo tempo, uma psicanálise um bocado condescendente. Nesta altura do ano, somos todos psicólogos. Muito raramente encontramos a versão de que as pessoas querem – gostam! – de praxar e ser praxadas. A mim não me incomodam demonstrações públicas de sexualidade e boémia, uns de quatro e outros por cima, o bacanal encenado e montado em torno da subversão da moral quotidiana (se calhar, se a minha opinião servir de algo, largar o traje e a pretensa ligação a uma tradição antiga? pouca gente acredita verdadeiramente naquilo também e a não ser que o traje dê tesão não vejo grande razão para o vestir); incomoda-me mais ver da esquerda uma certa inclinação para ditar costumes, de vir pautar o que é de bom tom e de mau tom – e no fim ainda nos servir com uma bela dose de “perdoai-os que não sabem o que fazem”.
O que não quer dizer, atenção, que não haja violência na praxe. Há e impune, os malfadados “excessos” (uma palavra muito usada neste contexto e que me parece branquear violência de facto) são tolerados tanto pela Universidade como pelos próprios tribunais. Não concordo, portanto, com respostas que desresponsabilizam as instituições, que correm o risco de culpar a vítima pela agressão. No entanto, tanto quanto sei, esta não é a grande parte do coletivo “praxe”. Se a violência deve ser combatida, não vejo razão para o ser aumentando a presença do Estado, mas sim pondo em prática os mecanismos que já existem.
Quanto ao resto, a cultura combate-se com cultura. Com alternativas eficazes e com uma dose saudável de conflito; um par de tabefes às vezes animam a noite (embora eu seja o primeiro a desviar-me de um) e o confronto obriga ao questionamento que por sua vez obriga à transformação. Sem moralismos, se faz favor; com argumentos dignos desse nome, já que estamos na Universidade e com a força de perceber que há lutas… e lutas.

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