Quem é que o ”governo de salvação nacional” pretende salvar?

Cavaco quer um “governo de salvação nacional”, composto pelo PS, PSD e CDS-PP. Portanto, quer garantir um governo da troika interna, fiel à troika externa. Os “salvadores”, está visto, são os mesmo que levaram o país ao atoleiro. Dispõe-se a convocar eleições, desde que o resultado seja estabelecido de antemão. Um verdadeiro democrata, este homem.

Mas quem é que Cavaco quer salvar?

O “interesse nacional” é uma miragem, uma fantochada demagógica. Não existe um “interesse nacional”, apenas os interesses antagónicos de quem vive da venda da sua força de trabalho e os daqueles que vivem do trabalho alheio e de rendas privadas ou estatais, como a dívida soberana. É cada vez mais claro que expressões como “interesse nacional” ou “salvação nacional” são apenas eufemismos mistificadores para os interesses da classe dominante no nosso país, nomeadamente, da alta finança, portuguesa e internacional. O próprio Cavaco admite isso ao afirmar que, acima de tudo, quer garantir o ajustamento da troika e os interesses dos nossos credores. Aliás, se ganhássemos um euro por cada vez que um político verbalizasse expressões grandiloquentes como “interesse nacional”, já a dívida tinha sido paga há muito tempo.

Ainda assim, existem três projectos da classe dominante para atingir um mesmo objectivo: salvar o ajustamento e os lucros dos credores da dívida pública. Primeiro, o do Governo, que consiste em soldar as juntas da coligação mesmo que isso implique ceder aos caprichos oportunistas de uma ratazana política como Paulo Portas; segundo, o do Presidente da República, que implica a formação do tal governo da troika interna; terceiro, o do PS, que, preocupado com o efeito negativo que um acoplamento ao PSD – e especialmente ao executivo de Passos Coelho – teria na sua influência eleitoral, prefere deixar a população libertar algum descontentamento nas urnas, beneficiando da desunião à esquerda e garantindo depois a aplicação do programa da troika externa através de um governo de coligação com o CDS ou, quiçá, com o próprio BE, caso o namoro secreto entre Semedo e Seguro dê frutos.

Por outro lado, trata-se também de uma tentativa de salvar o próprio regime. Ou melhor, de evitar que a crise política se transforme numa crise de regime. Nisso têm a tarefa facilitada, mesmo com todas as trapalhadas a que temos assistido nos últimos dias, pois a verdade é que a esquerda anti-troika (PCP e BE) não tem um projecto político para além do regime democrático-liberal. Ao invés de mobilizar as massas diariamente até à queda do governo, contenta-se em convocar “festas” no Marquês de Pombal e arruadas partidárias. A esmagadora maioria da população trabalhadora quer a queda do governo e grande parte dela está consciente que a dívida é impagável e não deve ser paga. Mas a esquerda insiste em não se unir e mantém a exigência absurda da renegociação da dívida, algo que já vimos acontecer antes na Grécia, com os resultados à vista de todos. O BE agora até já admite a renegociação do memorando, que é mais ou menos o mesmo que negociar com o cangalheiro a profundidade da nossa sepultura.

O povo quer que o governo caia, mas e depois? Mais um governo austeritário, desta vez liderado por Seguro? Não há uma alternativa no horizonte, não há uma perspectiva ténue de entendimento à esquerda que faça da palavra-de-ordem “governo de esquerda” mais do que um slogan. Que transforme este slogan numa perspectiva verosímil ou, pelo menos, numa possibilidade. Não admira que muitos trabalhadores não se mobilizem para a luta apenas com a exigência de eleições antecipadas. Quando a escolha que nos põem na mesa é entre Passos ou Seguro, entre morrer enforcado ou executado a tiro, é normal que as pessoas desmoralizem. Mesmo assim, temos assistido às maiores greves gerais e manifestações de que há memória. Imaginem se houvesse um projecto emancipador credível no horizonte.

Seria bom que os dirigentes do BE e do PCP deixassem de tentar arranjar desculpas para não se unirem entre eles, com os sindicatos e movimentos sociais, em torno de um programa mínimo que proponha a nacionalização da banca e dos sectores centrais da economia, uma moratória da dívida pública, um programa de investimento público que lance a economia sobre uma nova base e que crie emprego para todos. Mesmo que isso implique a saída do Euro ou da UE. Mesmo que isso implique fundarmos um novo regime que vá além da decrépita democracia burguesa, a qual treme a cada crise estrutural do capitalismo. Uma perspectiva de um governo dos trabalhadores e da população pobre, que aplicasse um programa socialista e estendesse a mão aos outros povos europeus sob a ditadura da troika, iria mobilizar ainda mais trabalhadores para a luta, a somar aos centenas de milhar que já agora fazem greves e vão às manifestações.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s