Tiranos e biltres não saem pelo próprio pé – têm de ser escorraçados

Defendi aqui que a Greve Geral de 27 de Junho, por si só, sem uma perspectiva de continuidade e radicalização, não seria suficiente para derrubar o governo PSD/CDS-PP. Enquanto decorria o circo a que temos assistido no últimos dias, com a demissão de Portas e a subsequente birra de comadres, cheguei por momentos a  pensar que estava errado e que o governo havia mesmo chegado ao fim dos seus dias. Porém, parece que tal não sucedeu, pelo que o meu texto de balanço e perspectivas da Greve Geral – onde pugno pela necessidade de um plano de acção reivindicativa por parte dos sindicatos, movimentos sociais e partidos dos trabalhadores, de forma a derrubar este governo e alçar um governo dos trabalhadores que integre representantes daqueles mesmos agentes – se mantém absolutamente actual.

Muito sinceramente, não percebo porque é que a classe dominante escolhe manter este executivo em funções. Do ponto de vista da classe capitalista europeia e internacional, cujo papel de delegação no nosso país é confiado à troika, seria desejável empossar um executivo que cumpra dois requisitos: primeiro, garantir o ajustamento da troika, ou, o que é o mesmo, garantir a aplicação do programa do capitalismo mundial para a resolução da crise (deles, não da nossa), através de mais desemprego, redução de salários, precarização, privatizações, etc. Em suma, pela transferência de valor do trabalho para o capital. Segundo, fazê-lo com o mínimo de contestação, isto é, com um governo firmemente sustentado numa base social sólida, que amaine as massas através de uma retórica mistificadora, uma prática coerciva determinada e legítima aos olhos de largos sectores da população, e a imposição de um falso consenso entre as classes sociais. 

É verdade que o governo de Passos Coelho corresponde às primeiras expectativas da troika, mas já o mesmo não se aplica ao segundo requisito. A base social deste governo saiu completamente enfraquecida destes dois anos de governação austeritária. Pode-se dizer que apenas a alta burguesia com uma base transnacional – especialmente o capital financeiro -, os sectores capitalistas parasitários das rendas estatais, e a burguesia industrial e comercial vinculada ao negócio das exportações (note-se que, comummente, estas categorizações se sobrepõem), se mantêm firmes no apoio a Passos.  A média burguesia industrial e comercial dependente do mercado interno deixou de se rever completamente no programa deste governo e a pequena-burguesia radicaliza-se crescentemente, ao ser esmagada pela crise e pela política governamental de subserviência ao capital financeiro. Relativamente à classe trabalhadora, digamos apenas que o governo PSD/CDS-PP bateu todos os recordes de contestação em apenas dois anos: 4 greves gerais com níveis de adesão altíssimos – a duas das quais aderiram ambas as centrais sindicais-, manifestações multitudinárias que levaram milhões de pessoas às ruas, e  lutas sectoriais permanentes. O carácter de classe da política do governo é claro até para os sectores mais recuados da classe trabalhadora e não me lembro de um governo tão moralmente descredibilizado e politicamente deslegitimado como este.

Levando em conta que a classe dominante, enfrentando um cenário de disrupção social, tem sempre a possibilidade de fazer dissolver a Assembleia da República, convocar novas eleições, aproveitar-se da irresolução da esquerda anti-troika e transferir do Largo do Rato para S. Bento o seu outro cão-de-guarda, António José Seguro, tenho algumas dificuldades em compreender por que motivo se apega a um executivo que se vê a braços com sérias dificuldades em governar seja o que for. Tivéssemos nós direcções sindicais e políticas verdadeiramente combativas e não só este governo já tinha caído na rua, como o próprio regime teria sido posto em cheque.

Seja como for, uma coisa queda clara: este governo e o seu programa, seja lá qual for o conteúdo do novo acordo entre os parceiros da coligação, é insustentável para quem vive do seu salário. Eles vão continuar a sua política de desemprego, de redução de salários e pensões, de aumento da jornada de trabalho e da idade de reforma, de impostos incomportáveis para o trabalhador, de privatização dos serviços públicos, de precarização dos vínculos laborais, de transferência de recursos do trabalho para o capital, de pagamento de uma dívida ilegítima e impagável. Tudo para minimizar os efeitos da crise capitalista nos lucros de uma minoria toda-poderosa. A tudo isto, há que responder com protesto baseado nos pressupostos avançados no meu artigo anterior: mais radicalização e continuidade da luta até o governo cair; na iminência de eleições legislativas, exigir ao PCP, ao BE, ao movimento sindical e aos movimentos sociais que se unam numa frente eleitoral socialista, anti-troika e anti-austeridade, que se constitua como alternativa de poder, evitando que este caia no colo do PS.

mumia

cordoaria

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