Sim, foi uma grande Greve Geral. E agora?

Os números não mentem. No passado 27 de Junho, assistimos a uma grandiosa Greve Geral. A par das mega-manifestações de 15 de Setembro e 2 de Março, bem como das inúmeras lutas sectoriais que grassam um pouco por todo o país – destacando-se a greve e manifestação dos professores neste mesmo mês de Junho –, esta Greve Geral vem denunciar o isolamento e descredibilização do governo de Passos Coelho no seio da esmagadora maioria da sociedade. Vem demonstrar, se ainda fosse necessário, que este governo perdeu toda a legitimidade política.

Os sectores dos Transportes e da Saúde praticamente encerraram; a esmagadora maioria dos trabalhadores do sector público aderiram à mobilização, com vários serviços da Administração Pública encerrados; a maioria dos trabalhadores do privado também aderiram, apesar de ser cada vez mais difícil exercer este direito com a ameaça permanente do desemprego e da precariedade. A adesão total terá andado perto dos 80%, um número que não deixa outra saída a este governo senão demitir-se.

Mas, e agora? Será que Passos e Gaspar se vão demitir? Não creio.

Apesar da indesmentível crise política, a burguesia portuguesa e os seus lacaios no governo não estão tão fragilizados como alguns querem fazer parecer. A estrutura repressiva do Estado está bem oleada, pesem alguns atritos pontuais, e nunca podemos esquecer que a classe dominante portuguesa se encontra bem integrada no plano internacional, com o apoio activo dos órgãos do capitalismo mundial, como as organizações que integram a troika (UE, FMI, BCE).

A burguesia e os seus governos aprenderam há muito a usar as Greves Gerais, as manifestações e as eleições como válvulas de escape para o descontentamento popular. O trabalhador descomprime a 27 de Junho, solta a raiva que há em si, volta para casa de consciência tranquila, o governo não se demite, o trabalhador amocha, leva com mais umas descargas diárias de lavagem cerebral nos media burgueses e, finalmente, desmoraliza. O governo lá é capaz de se acalmar durante umas semanas, dar alguns rebuçadinhos à populaça, se houver condições para tal, para uns meses depois voltar a anunciar mais miséria e austeridade. E o ciclo repete-se até chegar a vez de o PS ir para S. Bento e aplicar a mesma política, com uma face mais fresca e uma lengalenga recauchutada.

Para evitar isto, só há uma solução: perspectivar a Greve Geral não como o culminar de um processo reivindicativo, mas sim como parte de um plano mais alargado de luta, que derrube este governo e eleve ao poder uma frente unida dos partidos dos trabalhadores (PCP e BE), das organizações sindicais e dos movimentos sociais. Com este objectivo em mente, é necessário imprimir ao protesto duas vertentes: radicalização e continuidade.

Radicalização através da aplicação de formas de luta mais ousadas e que envolvam os trabalhadores. Por exemplo, através da ocupação dos locais de trabalho quando ameaçados de encerramento, deslocalização ou extinção. Exigindo aos patrões que abram os livros de contas sempre que anunciem planos de contenção de custos, que invariavelmente derivam em despedimentos ou lay-offs. E, não menos importante, preparar uma Greve Geral por um período mais alargado, por exemplo, de 48 horas. Tendo em conta a disposição para a luta da maioria da classe trabalhadora, isto seria perfeitamente exequível. Mas, para tal, há que envolver as bases na sua preparação, como referirei de seguida.

Continuidade através de uma lógica democrática, permanente e basista na organização dos protestos. Primeiro, o movimento sindical deveria abdicar desta forma burocrática de organização das Greves Gerais. Estas deveriam ser convocadas e organizadas a partir debaixo e não meramente decretadas pelas cúpulas sindicais. Na preparação da Greve, deveriam ser formados conselhos e assembleias de trabalhadores, para os envolver directamente na luta, definir a linha política e as palavras-de-ordem, coordenar esforços e gerir a Greve de forma democrática. Estes organismos deveriam manter-se em funcionamento após a realização da Greve, integrar-se a nível nacional, coordenar a sua actividade com a dos sindicatos, e planear futuras acções de luta, numa óptica de combate permanente, que deverá passar, no plano imediato, pela preparação de uma Greve Geral de 48 horas, desta feita planeada de forma democrática pelas próprias bases. É também absolutamente necessário criar fundos de greve, que assistam financeiramente os grevistas, especialmente se se almeja levar avante paralisações com uma duração mais prolongada.

Se numa Greve Geral decretada a partir de cima, sem a participação directa e activa das bases na sua convocação e preparação, 80% dos trabalhadores portugueses aderiram à jornada de luta, sob a pena de perder um dia de salário ou mesmo o seu emprego, como seria – e quão radicalizada seria – uma Greve Geral debatida e delineada, a montante e a jusante, pelos próprios trabalhadores, sindicalizados e não-sindicalizados, em coordenação com os aparatos sindicais e o apoio dos partidos da esquerda?

É algo sobre o qual devemos reflectir, pois este governo só deixará de governar quando o país se tornar ingovernável para eles, quando a luta for mais radical e permanente. De outra forma, os nossos capatazes vão usar greves e manifestações semi-ritualizadas como meros meios auxiliares de dominação.

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3 thoughts on “Sim, foi uma grande Greve Geral. E agora?

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