Um governo com o PS não é um governo de esquerda

Há uns dias atrás, Bagão Félix mostrava-se favorável a um hipotético governo de coligação entre o CDS-PP e o PS. Além disso, Bagão também aventou a possibilidade de se empossar um “governo de salvação nacional”, com os mesmos partidos que nos conduziram a esta situação (PS, PSD, CDS-PP), “desejavelmente sem eleições”, pois está claro. Isto não é novidade nenhuma, a direita oportunista (bem sei que isto é uma redundância) sempre teve uma relação de amor-ódio com o sufrágio universal: apela à sua legitimidade quando lhe interessa mas clama pela suspensão da democracia quando os eleitores se viram para opções políticas menos “responsáveis”.

Enfim, seja como for, se ainda restava algum espaço para dúvidas, o PS, através de declarações de Francisco Assis, Correia de Campos e Ricardo Gonçalves, já deixou claro que, caso falhe a maioria absoluta, coligar-se-á com o CDS-PP. Para sacudir a água do capote, acusa tanto o PCP como o BE de sectarismo. Acusações que caem em saco roto, valha a verdade. Ora vejamos bem, tanto o PCP como o BE não desejam por ora coligar-se com o PS por uma razão muito simples: sabem que uma coligação governamental liderada pelo PS seria uma continuação da política neoliberal a que já nos habituámos, acarretando a sua participação em tal executivo a perda da base social que os sustenta. Aliás, existem casos concretos susceptíveis de análise, nomeadamente aqui na Finlândia, onde a Aliança de Esquerda se coligou com o liberalismo, levando à emergência de uma onda de contestação (externa e interna) à linha do partido, à descida das intenções de voto na esquerda e à ascensão da extrema-direita, que parasita, como sempre, o descontentamento social. Numa palavra, se BE e PCP querem sobreviver politicamente, têm de seguir a onda de radicalização do movimento popular. Coligar-se num governo que aplique um programa de austeridade (e é isso que o PS quer fazer) seria um autêntico suicídio para estes partidos. E os trabalhadores teriam toda a razão em os penalizar caso seguissem esta linha, pois um governo com o PS não é um governo de esquerda, muito menos um governo dos trabalhadores.

No caso do BE, não é porque haja falta de vontade, visto que a sua direcção anda a sondar a possibilidade de aproximação ao PS desde 2011, tendo sido inclusivamente castigada por isso, ao ver a sua representação parlamentar cair para metade e ao assistir à cisão da ala esquerda bloquista. Para um partido cuja implantação social real é reduzida e que apenas sobrevive graças à presença no órgão parlamentar e à visibilidade pública que daí decorre, isto foi uma machadada tremenda.

Face a este cenário, o PS tem de se virar para aqueles com quem sempre encontrou pontes ideológicas: a direita. De bom grado se aliaria ao PSD, mas tal não seria boa política, se tivermos em conta o lugar que o partido encontra na opinião da esmagadora maioria da população. Assim, sobra esse “enche-buracos” da democracia portuguesa, cujo nível de demagogia é directamente proporcional à falta de escrúpulos: o CDS-PP do Paulinho das feiras.

Não sei quando irá cair este governo, mas não tenho dúvidas que será antes do fim do mandato, caso a mobilização popular persevere. Na perspectiva de umas novas eleições, como aconteceu em processos eleitorais passados, quatro grandes tendências se delineiam no seio da população trabalhadora: primeiro, os sectores menos conscientes que votam no PS cedendo à lógica do “voto útil”; segundo, os trabalhadores mais conscientes que sabem que um voto no PS, no PSD ou no CDS-PP não faz grande diferença, pelo menos num plano macro-político, e concedem o seu voto ao PCP ou ao BE; terceiro, um enorme sector, bastante heterogéneo, mais ou menos consciente, que não tem ilusões nos partidos parlamentares e prefere votar em branco ou nem sequer votar; quarto, aqueles que, ainda que simpatizando com determinadas propostas do PCP ou do BE, consideram que estes partidos isoladamente não oferecem uma alternativa de poder e acabam por votar em branco. Estas duas últimas fatias da classe trabalhadora são enormes (a abstenção chegou aos 42% nas últimas legislativas) e não devem ser menosprezadas, especialmente quando grande parte delas, consciente ou inconscientemente, se dá conta das limitações da democracia liberal e das contradições do sistema capitalista.

Num plano táctico, penso que este quadro poderia ser alterado com uma frente eleitoral entre PCP e BE, que assim poderiam se afirmar como uma alternativa de poder, captando não só o apoio do seu eleitorado tradicional, mas também daqueles que de outra forma cederiam à lógica do “voto útil” no PS ou aqueloutros que antes não votavam na esquerda porque esta não era uma opção de governo. A única maneira de estancar a ofensiva neoliberal é erguer um governo da classe trabalhadora. As diferenças programáticas que me separam do BE ou do PCP são enormes, mas ainda assim, são as únicas organizações políticas dos trabalhadores com influência de massas. Há que desafiá-los a unirem-se e a assumirem-se como uma alternativa de governo, em torno de um programa genuinamente socialista para ultrapassar a crise capitalista, mesmo que isso implique levar-nos para fora do marco da democracia liberal e da Europa do capital. Se não estiverem à altura destas tarefas históricas, outras direcções políticas mais resolutas terão de ser forjadas e assumir a direcção do movimento.

Mas, até lá, ainda temos de derrubar este governo e aprofundar a organização popular! Hoje, todos a Belém e no dia 1 de Junho, todos à manifestação internacional contra a troika!

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2 thoughts on “Um governo com o PS não é um governo de esquerda

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