A falta de noção do ridículo

A blogger Bárbara Rosa ontem disse uma coisa que me pareceu muito importante: esta geração não quer saber de números, de factos, de informação bruta. Corroborada por uma recém-licenciada que interveio também no programa, ficou estabelecida a tese de que um tipo na casa dos 20-30 anos, deparando-se com um debate onde se expõe os dados de forma concreta, despacha-se a mudar de canal.

Mais do que importante, aliás, esta tese foi central e a conclusão do programa de ontem.

Este, por sua vez, viu-se espalhado e disseminado pelas redes sociais e sucessivos canais de humor online, condensado num curto clip de vídeo, que mostra uma interrupção (pertinente, a meu ver) da Raquel Varela ao Martim. O Martim tem 16 anos e um negócio, estampa camisolas e vende-as a preços módicos. Foi convidado como um exemplo de empreendedorismo; a Raquel Varela confronta-o com os salários dos trabalhadores da indústria têxtil (salário mínimo) e com a evidência de que este salário mínimo, como virá a dizer mais tarde no programa, é uma vergonha. O Martim responde-lhe que “é melhor do que estar desempregado”.

O vídeo ganhou popularidade por ser uma espécie de David contra Golias, o rapaz adolescente e inocente que faz pela vida contra o colosso académico refastelado no alto da sua intelectualidade. Uma imagem bonita, mas falsa, partilhada incessantemente com a devida dose de insultos, claro está. Não viram o programa nem quiseram perceber o que esteve ali em causa. De resto, esta praga já foi devida e sumariamente respondida pela visada.

Transformado e traduzido num clip de sátira, para gáudio popularucho, ficou portanto confirmado que, realmente, esta gente não precisa de números. A intervenção brilhante de Raquel Varela e de outros participantes que sistematicamente denunciaram a necessidade de uma reformulação da sociedade, da responsabilização dos culpados de do combate às desigualdades sociais ficou para outra vez. Outra vez, noutra geração, a geração que finalmente se decidir em sentar e pensar sobre o assunto, em vez de se dedicar a trivialidades e bocas sem fundamento.

11 thoughts on “A falta de noção do ridículo

  1. Pingback: Over It! – Era uma vez um conto de fadas | cinco dias

  2. Realmente a juventude só pensa em coisas desnecessárias, a massa feita de marionete, alguns ganham em quanto grande parte emburrece ainda mais D:

  3. Haverá por aí mais gente a saber interpretar desta forma, o problema. As palmas da claque de Cascais e o que sobra de comentários toscos, é a Direita a estrebuchar, apertada que está com os resultados contraditórios à sua biblia.

  4. Relativamente aos tema dos insultos, parece-me importante clarificar que o direito ao insulto é propriedade exclusiva da esquerda do 5dias. Entre outros: indigno, ignorante, idiota, imbecil.

    Quanto ao números posso deixar um: ZERO é o que a Raquel Varela entende dos fundamentos da Economia.

      • fdp, lol.

        Não vou responder ao insulto, porque como referi, o direito ao insulto é propriedade exclusiva da esquerda.

        Quanto ao fdp, deu para entender que deve ser mais um daqueles que acredita que o caminho a seguir é matar o empreendorismo e deixar toda a iniciativa económica no controlo do Estado. Até porque o sucesso desse caminho está empiricamente comprovado nos casos em que foi adoptado: URSS, China, Cuba, Venezuela, Jugoslávia, Cambodja, etc. Podemos também comparar casos mais semelhantes, como os que resultaram da divisão de países: RDA vs RFA ou Coreia do Norte vs Coreia do Sul – claramente os primeiros eram / são paraísos em que todos vivem felizes e sem qualquer indício de exploração.

    • Esse tipo de argumentário não serve mais do que confirmar aquilo que escrevi no artigo. Reserve os comentários ao 5dias para o respectivo blog, onde a autora também escreve – pode ser que ela queira responder à sua acusação. Provavelmente, não, o que também explica a sua necessidade de vir queixar-se aonde não o ouvem.

  5. “Uma imagem bonita, mas falsa, partilhada incessantemente com a devida dose de insultos, claro está.”

    O meu comentário foi em resposta a esta afirmação. Utiliza o facto de no meio dos comentários “pró-Martim” existirem insultos para os desvalorizar na generalidade, no entanto ignora os insultos existentes nos comentários “pró-Raquel”, inclusivamente no blog onde ela escreve, inclusivamente em posts escritos pela própria. É uma falácia.

    • Eu não me refiro a insultos nos comentários “pró-Raquel”, como lhes chama, porque não encontrei nenhum equivalente a “burra”, “ignorante”, “arrogante, “puta” e “enfia x pelo y acima” dirigidos ao rapaz. Não encontrei atentados ao currículo do Martim, muito menos o desdém mesquinho com que a competência da Raquel Varela foi posta em causa a partir de um clip de vídeo. Não digo que não existam e não quero mal nenhum ao puto, nem subscrevo esse tipo de comportamento, que acho igualmente mesquinho.

      Assim como não subscrevo o seu comportamento. Fala de falácia mas ignora o argumento feito: compreendo a onda de solidariedade pela coragem do Martim. Mas a mensagem foi distorcida. Se vir o link que deixei no post, e que deu origem ao título que usei, perceberá onde quis chegar. Agora, com meios silogismos do tipo “o insulto é propriedade da esquerda”, não espere mais um minuto sequer da minha atenção.

  6. Engraçado, eu encontrei todos os insultos que referi inicialmente nos posts do 5 dias. O facto de considerar que esses posts não contêm insultos, dá sentido à minha infame afirmação.

    Não, não espero mais um minuto da sua atenção. Como também não terá a minha.

  7. Pingback: Over It! – Era uma vez um conto de fadas | Arquivo 5dias

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