A austeridade e a dívida devem ser rejeitadas. Tanto ao Norte como ao Sul

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“Nós ajudámos os povos do sul da Europa através de uma série de resgates. Agora, cabe-lhes a eles fazerem as reformas que têm de ser feitas, pôr as contas públicas em ordem e pagarem o que nos devem”

Este é um aforismo muito comum aqui na Finlândia. O Estado finlandês andou nos últimos anos a desembolsar dinheiro para os fundos europeus, que, por sua vez, o direccionaram para sucessivos “resgates” dos sistemas financeiros no sul do continente, na sequência de décadas de gestão danosa, irresponsabilidade, corrupção e uma espécie de “preguiça endémica” que dizem grassar entre os greco-latinos. Não é portanto de admirar que o discurso chauvinista de partidos como os Verdadeiros Finlandeses encontre uma audiência entre as classes mais baixas, que vêem assim os recursos públicos espoliados em favor de incorrigíveis povos estrangeiros, desmerecedores de qualquer apoio por parte dos sistemáticos, organizados e economicamente mais aptos povos nórdicos. Portanto, se o mal está feito, tratem de pôr a casa em ordem e passem para cá o dinheiro, se fazem o favor.

Mas corresponderá isto à verdade? De forma alguma. Os recursos públicos dos países nórdicos não têm sido esbulhados em favor dos povos do sul da Europa, mas sim do capital financeiro, sul ou centro-europeu, maioritariamente germânico. Os fundos europeus são meros intermediários neste negócio sujo das dívidas soberanas. Nem um cêntimo do “resgate” da troika, parcialmente custeado pelo erário público finlandês, serviu para pagar os salários dos trabalhadores portugueses ou para financiar o Estado Social. Segue tudo direitinho para o serviço da dívida e para a recapitalização da banca. Por outras palavras, para o capital financeiro.

Com essa dívida, contraída em benefício de interesses privados – mais ou menos obscuros, mais ou menos legais – e não em benefício do povo ou para o financiamento regular do Estado Social, vem a austeridade. Mas as políticas de austeridade implementadas pelos governos sul-europeus não afectam exclusivamente os trabalhadores do sul da Europa. Os trabalhadores norte-europeus, ao defenderem a continuidade das políticas de austeridade e do pagamento das dívidas soberanas dos países mediterrânicos, devem ter consciência que isso trará consequências também para o seu quintal.

De facto, a emergência de um massivo fluxo emigratório tem sido uma das consequências da sangria austeritária no sul da Europa. Uma fracção desse fluxo destina-se precisamente ao norte da Europa. A título de exemplo, em 2011 chegaram cerca de 300 imigrantes oriundos da Espanha, Portugal, Grécia e Itália ao sul da Finlânda; em 2012, esse número duplicou; em 2013, prevê-se que chegue aos 1300, só de espanhóis e gregos. E a tendência é que estes números aumentem em proporção directa à intensidade da ofensiva neoliberal no Sul. Atente-se, além do mais, que estes números oficiais podem desviar-se substancialmente da realidade, na medida em que é difícil quantificar os fluxos migratórios no interior do espaço Schengen.

Descartemos de antemão qualquer visão romântica do fenómeno da emigração. Não são jovens “empreendedores” que chegam à Finlândia todos os anos, vindos dos PIGS; são jovens sem alternativas. Os “empreendedores” que para aqui vêm “bater punho” são a excepção que confirma a regra. É portanto um fluxo constante de trabalhadores desesperados, na sua maioria jovens, com formação qualificada, sem tradições de organização política ou sindical, dispostos a trabalhar por remunerações salariais um pouco maior do que as do seu país de origem e sem qualquer capacidade reivindicativa perante o patronato. Logicamente que tudo isto, num contexto de estagnação económica, consiste num factor de pressão descendente sobre os salários, estimula a contratação precária e contribui para uma agudização do desemprego.

Por outras palavras, agrava ainda mais os efeitos da política austeritária materializada pelo “governo arco-íris” finlandês. Em relação a isto, é bom lembrar que, enquanto Jyrki Katainen, o primeiro-ministro da Finlândia, baixa os impostos para o capital e corta nos serviços públicos, com o beneplácito da esquerda parlamentar, o défice do Estado no país escandinavo alcança os 3,8% (subiu de 2,5% em 2011), o desemprego aproxima-se dos 8,7% (em 2011, estava nos 8,4%), e a dívida soberana corresponde a 54% do PIB (49% em 2011). O raciocínio é o habitual: resgata-se os lucros do capital, sufocado por uma economia estagnada, à custa dos recursos públicos. O “equilíbrio das contas públicas” só vem ao caso quando é para privatizar, cortar nos serviços públicos, reduzir salários ou despedir.

No meio desta jogatana toda, são sempre os mesmos que ficam a ganhar: o capital financeiro europeu, com as recapitalizações, os “resgates” e o serviço da dívida “pública”. Com a austeridade, ao Sul e ao Norte, perdem os trabalhadores europeus, tanto os do Sul como os do Norte.

Como fiz questão de afirmar já por várias vezes, a expressão “internacionalismo proletário” não é um mero chavão. É uma consequência lógica e uma necessidade objectiva para a transformação da sociedade. 

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