Funeral de Margaret Thatcher: boa altura para morrer!

No dia do funeral de uma das mais controversas figuras políticas da História recente, é imperiosa uma reflexão sobre o legado de Thatcher. Suspeito que ela não iria gostar de tal coisa uma vez que o seu pragmatismo deixava ver pouco mais do que um mundo instantaneamente a preto e branco, nós e eles, os inimigos, internos ou externos, leia-se, sindicatos e comunistas, respectivamente.

Durante 11 anos de governação, Thatcher foi responsável pela adopção de um modelo económico que nos conduziu à crise de hoje. A admiração pelas teorias de mercado monetaristas de Milton Friedman, prendem-se, a meu entender, com a classe social da falecida: a pequena-burguesia que, combinada com as privações da Guerra e o pânico geral da invasão soviética em inícios de Guerra Fria, moldou-lhe o pensamento político. A pequena-burguesia é conservadora porque teme os pobres, os excluídos, os proletários e porque quer ascender, quer tornar-se na classe dominante.

A mesma origem classista permitiu-lhe uma ascensão meteórica e, curiosamente, deu-se numa sociedade bem diferente daquela que planeou edificar aquando do seus anos no governo. Não obstante, Thatcher esperava nos anos 80 que todos se desenrascassem como ela o fez. Típico de pensamentos neoliberais cujo inimigo é o Estado e todas as formas de organização da sociedade que não sejam empresas, é tentar incutir a meritocracia nos cidadãos, meritocracia que numa sociedade desigual, de classes vincadas como o Reino Unido é o mesmo que dizer competição desenfreada. Não importa nada, interesse público, sentido de comunidade, culturas locais, importa, sim, fazer tábua rasa do tecido social e entregar tudo aos mercados, depois cada um terá uma vida acordo com os seus méritos.

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Ora, num contexto como o actual, foi uma sorte que Thatcher tenha morrido agora pois é justamente nesta altura que estamos a sentir os efeitos do modelo económico implantado por ela e é nesta altura que teremos de escolher qual o caminho a tomar. Já se sabia que o revisionismo histórico iria surgir ao virar da esquina, com um governo como o de David Cameron jamais poderia ser de outra forma, portanto, o debate e a luta pela verdade importam mais do que nunca.

Para Portugal, é boa maneira de vermos o que aconteceu e o que está para a acontecer. Desenganem-se aqueles que pensam que se o resultado for o mesmo, será bom para este país. O Reino Unido é um país profundamente desigual, onde o regime classista é cristalizado através da monarquia e onde o ensino extremamente caro desempenha um papel fundamental na manutenção das elites.

Que tipo de sociedade queremos? Uma sociedade do “cada um por si” em que os interesses privados reinam sobre tudo e todos; uma sociedade de divisões sócio-económicas profundas; uma sociedade onde ser pobre é ser excluído; uma sociedade que condena o sentido comunitário; uma sociedade onde os trabalhadores não têm direitos; uma sociedade onde o poder financeiro é o verdadeiro governante? Ou pelo contrário, queremos uma sociedade fraterna, em que os bens de interesse público são garantidos de maneira que servir a todos; uma sociedade onde o Trabalho tem dignidade e direitos e retribuições justas; uma sociedade que consagra a igualdade entre géneros; uma sociedade que privilegia o investimento real, inova, preserva o ambiente e põe a economia ao serviço das pessoas?

É uma óptima reflexão para se ter no dia do funeral de Thatcher, de certeza que ela iria odiar!

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