Do empreendedorismo

A escolha de Miguel Gonçalves (MG) pelo gabinete de Miguel Relvas não foi certamente à toa e implica bastante mais do que o ter-se visto uns vídeos no youtube. Ele revitaliza o empreendedorismo de uma forma cativante e terrena – ele responde directamente a uma geração de MGs que se vê com vontade mas sem acção. Personifica quem observa os protestos que trouxeram centenas de milhares de pessoas à rua com a impotência de um comentador de bancada; como quem diz “isto realmente é formidável… e depois?”

Ele transporta um tipo de linguagem perigosa, a linguagem do “apolítico” que desdenha da História, que ignora as profundidades da economia – não só das finanças, pois a economia não se limita a finanças, mas também a economia da cultura, da educação da saúde – e que responde, a partir da postura do despojado “com ideias”, com vontade de fazer e pouca paciência para trivialidades.

Há uma propriedade desta linguagem viperina, é que puxa para uma vontade natural de mexer e pegar na vida, levá-la a qualquer lado e trabalhar. Essa é a máscara do “empreendedor”: ele chama ao de cima esta necessidade de trabalho e de satisfação que a todos nos motiva para fazermos algo construtivo e a longo prazo, acenando a recompensa do capital como a cenoura à frente do burro, e diz: “anda, jovem! Trabalha e esforça-te, que um dia o trono será teu! Olha para mim, que sou bem sucedido! Um dia, também tu o serás.”

Claro, ao mesmo tempo, também julga. E é no julgamento que se separa o trigo do joio, apontando aos desempregados e pobres como entidades inertes cuja vitimização parte de si mesmas. Apenas e somente por sua única culpa se encontram nesta situação. Porque eram adolescentes e estavam demasiadamente ocupados a ser adolescentes para ganhar experiência de trabalho; porque eram jovens adultos e estavam demasiadamente deslumbrados com a sua aprendizagem para fazer dela um produto de mercado; porque são recém-licenciados, recém-casados, ou o que seja, e estão demasiado acomodados para ir “bater punho”.

O pernicioso da linguagem do MG não está, por isso, no seu ímpeto motivador, que é bonito e recomendo a qualquer um: sim, pegai na vossa vida! Está, sim, no que vem de arrasto: na responsabilização dos desempregados, na leviandade com que se afirma “não perceber nada de política” como quem fala de futebol ou da telenovela e, sobretudo, na personificação do jovem entusiástico que se atira para um trabalho mal pago, desregrado e alienante com o fervor de um homem religioso.

Porque não chega desapossar e desagregar uma geração inteira – importa também que esta se convença de que atingiu o auge da sua potencialidade. Importa apontar o exemplo de quem foi bem sucedido e ofuscar todos os outros que morrem na praia. Importa, também, empurrar para segundo plano o pensamento crítico, o conhecimento de fundo, pois são coisas que demoram tempo a interiorizar e tempo é coisa que o empreendedor não tem – se o tivesse, provavelmente não o seria.

4 thoughts on “Do empreendedorismo

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