Chipre e Portugal – duas faces de uma mesma luta

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O novo acordo firmado entre a troika e o estado do Chipre não é a solução para a economia cipriota, a qual depende do seu sector bancário sobredimensionado (8 vezes o PIB do país) e das condições fiscais aliciantes que ele oferta ao capital estrangeiro. A confiança na banca cipriota foi abalada com a primeira versão do acordo, que afectava todos os depositantes, ricos ou pobres, e este novo pacote não a recupera de maneira nenhuma. A reestruturação da banca, que prevê o desmantelamento do banco Laiki, vai ser paga por accionistas e grandes depositantes, que terão perdas colossais. Também os depósitos superiores a 100 mil euros no Banco do Chipre sofrerão perdas na ordem dos 30%. A grande vantagem para a troika neste pacote, face ao anterior, é que carece da necessidade de aprovação no parlamento. No entanto, como já disse, para um modelo económico cimentado num paraíso fiscal, a confiança dos depositantes, especialmente dos milionários oriundos de países estrangeiros, é um factor determinante e ela não foi reposta com este acordo, pelo que tenho sérias dúvidas que o estado cipriota consiga estancar a fuga de capitais que se seguirá. A ruína económica é inevitável no marco capitalista, algo que irá beneficiar a troika e os usurários que a dominam, na medida em que o Chipre vai ter de permanecer “ligado à máquina” durante os próximos anos, o que implica uma dependência económica acentuada e uma subserviência política absoluta aos diktats da UE. Aliás, o novo pacote prevê já um protocolo de acordo que estabelece um conjunto de medidas de austeridade e privatizações.

Em segundo lugar, esta crise expõe a fragilidade da zona euro. De facto, se um ou dois países periféricos, por diminutas que sejam as suas economias, decidirem abandonar a moeda única, o euro cai como um castelo de cartas. Em parte, é aqui que reside a solução para os países da periferia europeia, uma solução política que resgate as populações trabalhadoras e não a alta finança. Nacionalizar o sector bancário, congelando a fuga de capitais; recusar o pagamento de uma dívida injusta, perpetuamente ascendente e objectivamente impagável; abandonar o euro, a moeda da austeridade; nacionalizar os sectores centrais da economia, reconvertendo a parca produção agrícola e indústrial e colocando-a sobre a gestão dos trabalhadores (note-se que a zona económica exclusiva cipriota possui reservas de gás natural, concessionadas a uma empresa norte-americana); investimento público nestes sectores, para produzir mais e criar emprego, entre outras medidas.

Eis as bandeiras que a esquerda europeia se recusa a levantar, presa às ilusões de uma “democracia pura”, sem conteúdo de classe, e um capitalismo de rosto humano (relembro que o AKEL, o partido comunista cipriota, esteve no governo até há pouco tempo, agindo como o braço local da austeridade europeia). Na verdade, o caso do Chipre demonstra de forma categórica como a solução para a crise capitalista deve ser encontrada fora do regime democrático-parlamentar, ao ficar bem claro como o imperialismo germânico, através das instituições da UE, sempre consegue circundar os órgãos parlamentares nacionais, a não ser que estes sirvam para ratificar os seus ditames neo-coloniais. Portanto, se a solução económica é socialista, a ferramenta política continua a ser a acção revolucionária dos trabalhadores.

Se a esquerda tradicional, por seu lado, foge a estas tarefas como o diabo foge da cruz, há que formar alternativas, não só no Chipre mas também, a curto-prazo, nos chamados PIGS. A nossa luta é a mesma, por isso há que forjar laços inquebrantáveis entre os trabalhadores de Portugal, Itália, Grécia, Espanha e, agora, Chipre. A tomada do poder pelos trabalhadores em cada um destes países e a aplicação das medidas revolucionárias acima mencionadas permitir-nos-ia construir novos caminhos. A saída do euro seria dura, por certo, mas estaríamos a sacrificar-nos pelo nosso futuro, por um mundo melhor, e não pelos lucros de uma classe parasita. Apenas através de uma estreita cooperação entre os trabalhadores dos PIGS, exercendo o poder ao leme dos respectivos estados, poder-se-ia atenuar as agruras da jornada e enfrentar a fúria da Europa de Merkel. Os trabalhadores dos restantes países europeus certamente não ficariam indiferentes à nossa demanda e, quiçá, a união de estados proletários mediterrânicos formaria o embrião de uma Europa socialista. Devemos estar conscientes que a ruptura com o capitalismo num qualquer destes países de forma isolada estaria condenada ao fracasso. Se os trabalhadores dos outros países mediterrânicos não saltassem para a carruagem da revolução, seguir-se-ia o isolamento político e económico, a sabotagem externa e interna, a miséria e, porventura, uma intervenção militar sob égide norte-americana ou germânica. Quaisquer ilusões de autarcia devem ser abandonadas, bem como todas as perspectivas de uma luta de classes arregimentada em fronteiras nacionais precisas. O internacionalismo proletário não é um capricho ou um mero chavão. É uma necessidade objectiva.

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