Obviamente, demitam-se

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Na ressaca da grandiosa manifestação de 2 de Março, agora que o sangue esfria e a euforia de voltar a ver um povo unido em luta contra o roubo descarado acalma, é altura de retirar ilações políticas. A primeira é bastante óbvia: este governo tem de se demitir. Melhor, já foi demitido nas ruas. Pode governar de jure, mas, de facto, praticamente ninguém reconhece a sua legitimidade, quer ao nível político ou ético/moral.

É preciso ter claro que estamos a falar da maior manifestação de sempre no nosso país, com cerca de um milhão e meio de pessoas na rua, não só em Portugal mas também no estrangeiro; maior do que as multitudinárias manifestações da altura do PREC, precisamente quando o povo português estava mais politizado e radicalizado do que nunca. Antes, como agora, as ondas do poder popular agitavam-se ao som das trovas mágicas de um homem maior do que o pensamento: José Afonso. A manifestação de 2 de Março foi mais um patamar numa tendência de mobilização e radicalização que se desenvolve (com curvas ascendentes e descendentes), pelo menos, desde o 12 de Março de 2011, quando o protesto extravasou a via institucional pela primeira vez.

Façamos um exercício. Imaginemos por momentos que somos um dos donos de Portugal ou da Europa. Isto é, que somos um multimilionário presidente de um CEO de um qualquer banco ou grande grupo económico. Desde esse ponto de vista, quando começa a cheirar a pólvora nas ruas e o burburinho tímido se transforma em bramido feroz, torna-se claro para a burguesia que este governo não lhe serve mais. É contraproducente, pelo que tem de se afastar para abrir espaço a novas eleições. Já antes a burguesia recorreu a este método. Relembremos, a título de exemplo, a queda do governo de Sócrates, que foi ditada em primeira instância pela manifestação da “Geração à Rasca”. A burguesia então apercebeu-se que o governo, depois de aprovar PEC atrás de PEC, estava de tal maneira fragilizado que não iria conseguir conter a revolta e mais valia canalizar o descontentamento para um acto eleitoral. Aliás, não tivéssemos nós uma múmia em Belém, e a Assembleia da República já haveria sido dissolvida há um par de meses.

Porém, a demissão do governo de Passos Coelho e a dissolução do Parlamento não é a única consequência política a retirar da manifestação de 2 de Março.

Com efeito, esta não consistiu somente numa derrota para o governo, mas também num manifesto cartão vermelho para a Troika. Não são só Passos e Portas que têm de migrar de volta para o buraco de onde vieram, mas também os tétricos tecnocratas que sequestraram a democracia portuguesa. Daí que a manifestação deva servir de um claro aviso ao PS.

Infelizmente, as intenções de voto permitem entrever um futuro governo “socialista”, sozinho com maioria absoluta ou coligado com a direita, mas a grande novidade do presente contexto é que o PS não vai poder aplicar o programa da Troika se quiser permanecer no poder por algum tempo. Ou seja, caso seja eleito um governo do PS, este sofrerá pressão imediata nas ruas, desde o início do seu mandato, para romper com as ordens “austeritárias” emanadas de Bruxelas e Berlim. Terá, na prática, que romper com o liberalismo. Ora, não é preciso puxar muito pelos miolos para perceber que tal linha política escapa ao código genético do partido de Seguro.

É aqui que a coisa se torna interessante, pois, façamos notar, as organizações dos trabalhadores, jovens, desempregados, estudantes, pensionistas, etc., sejam elas mais ou menos institucionais e acomodadas ao regime, não poderão (e não conseguirão) desarmar, mesmo na eventualidade de umas novas eleições, posto que tenho grandes dúvidas que estas consigam aliviar a tensão que as massas exercem sobre aquelas. Por outras palavras, caso o PS suba ao governo (com os votos de uma minoria, tendo em conta os níveis de abstenção a que já nos habituámos) e se mantenha fiel aos seus capatazes troikistas, os trabalhadores e o povo em luta não arredarão pé das ruas, ao contrário do que se verificou em processos semelhantes anteriores.

No entanto, e para terminar esta já longa nota, a ascensão do PS do Largo do Rato para S. Bento não é uma fatalidade. Para obviar a tal, basta que a esquerda parlamentar e extraparlamentar, o movimento sindical e os movimentos informais de protesto popular se entendam, consigam sentar-se à mesa e discutir um programa-base para uma frente eleitoral popular e socialista, tendo como pontos de convergência mínimos o rompimento do memorando da miséria, a expulsão da Troika, a quebra das cadeias da dívida e um programa de crescimento económico. Está tudo nas mãos dos trabalhadores e das suas direções.

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