Que lixo de economia!

Hoje, ao abrir o computador, esta é a primeira notícia que surge no meu écran: Pedro Machado, administrador da Braval – empresa multimunicipal responsável pelo tratamento dos resíduos sólidos dos concelhos de Amares, Braga, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde – está muito preocupado com o crescente número de pessoas que se entretém a catar os pontos de recolha do lixo. Estará o senhor preocupado com a evidência de que este hábito não é voluntário, mas decorre da crescente pauperização da população, parte da qual se vê forçada a ir procurar alimentos ou outros recursos num monte de lixo? Não, Pedro Machado, ao invés, denuncia esta prática como um “roubo”, que priva a empresa que dirige dos seus merecidos lucros.

Isto é o que acontece quando as leis do mercado invadem todos os âmbitos da nossa sociedade, desde a produção das commodities até ao fim do ciclo de consumo. É o que acontece quando uma economia de mercado se transforma numa sociedade de mercado.

Mas há mais! Pedro Machado queixa-se que a crise “alterou os hábitos alimentares de muitas famílias portuguesas, que passaram a cozinhar mais em casa, evitando o recurso ao ‘take-away’ e às embalagens de comida pré-cozinhada, e a aproveitar as sobras”.

Não quero de modo nenhum entrar no discurso choné da Jonet, mas não devia isto ser um dado positivo? O facto de as pessoas preferirem cozinhar em casa (quando não têm de trabalhar 12 ou mais horas por dia, restando-lhes algum tempo para comer com a família), utilizar menos recipientes de alumínio e plástico não seria, à primeira vista, positivo? O facto de produzirmos menos lixo não seria positivo? Não, quando o funcionamento da empresa que lida com a recolha e tratamento de resíduos é pautado pela lógica privada, isto é, pela lógica do mercado. Ecologia não rima com capitalismo.

Por outro lado, precisamente por não querer ingressar numa área típica do discurso da Isabel Jonet, ressalvo o seguinte: Pedro Machado está certo ao afirmar que o decréscimo de resíduos sólidos deriva de uma quebra no consumo, causada, por sua vez, pela diminuição dos salários, pelo desemprego, pela redução dos apoios sociais, etc. Por outras palavras, pela crise e pelo desmantelamento do que restava do Estado Social, não de alterações desconstrangidas nos padrões de consumo. Alterações que, na minha perspectiva, deveriam ter lugar, é certo, mas isso são contas de um outro rosário. O mais distorcido nisto é que Pedro Machado concebe como solução para o problema a punição por coima de pessoas que já pouco ou nada têm. Como se elas andassem a vasculhar o lixo por ganância!

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