Os “mercados”, essas amorfas deidades do século XXI

Ontem assistimos a um gigantesco golpe de propaganda pró-governo, devidamente assistido pelos media tradicionais: a reentrada de Portugal nos “mercados”. Como sou leigo nesta matéria, abstenho-me de tecer grandes considerações sobre o assunto; aliás, já muito foi escrito e dito sobre o mesmo, ou não tivéssemos nós, ao longo de todo o dia, os papagaios do regime a cacarejar sobre as virtudes desta brilhante operação táctica, genialmente comandada pelo generalíssimo das Finanças, o ministro Vítor Gaspar.

Pese tudo isto, queria partilhar três apontamentos mais gerais.

Primeiro, a forma como se continua a tratar os “mercados” sob esta designação aparentemente neutra, como se tratassem de deidades, amorfas e inatingíveis, cuja benevolência depende apenas da subserviência do povo português, devidamente timonado pelo seu governo. Empalma-se o facto que estes “mercados” são coisas concretas, são um sector socioeconómico preciso, com interesses sectoriais não menos precisos. São o capital financeiro, isto é, os grandes grupos económicos. Disto decorre que o servilismo do poder político frente aos “mercados” não é algo inevitável. O Estado não se dobra perante entidades transcendentais, cuja existência se localiza num plano superior e, por isso mesmo, inalcançável pelo poder terreno. O Estado verga-se perante grupos concretos, dominados por interesses concretos. O Político, o plano onde a vontade popular pode fazer pressão, é domado pelo Económico, uma tendência verificável ao longo de toda a história do sistema capitalista mas levado ao limite nestes tempos de ultraliberalismo.

Segundo, é absolutamente grotesco – tão grotesco, aliás, como os tempos distópicos em que vivemos – assistir à apoteose com que o regime se vangloria não apenas da subserviência aos grandes grupos económicos, portanto, aos “mercados” (que, indolentes, já voltaram a “confiar” nos portugueses), mas, simultaneamente, do aprofundamento da dívida pública. Sim, porque “ir aos mercados” significa precisamente contrair mais dívida, no mesmo dia em que somos informados que o seu valor corresponde a 120% do PIB.

Terceiro, é repugnante a forma como se celebra a lógica distorcida, típica do capitalismo da época do predomínio do capital financeiro, segundo a qual um Estado se financia não através dos impostos dos seus cidadãos – os quais, note-se, seriam mais do que suficientes para financiar os gastos sociais estatais –, mas através de uma “pesca” contínua nos mercados financeiros. Ora, não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que isto acarreta consequências nefastas: primeiro, a já mencionada dependência do Político face ao Económico; segundo, o agravamento ad infinitum da dívida pública. Enfim, o Mercado manda, porque é ele que paga, e garante uma renda perpétua à custa dos dinheiros públicos, porque a dívida é impagável.

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