Reflexão de início de ano

Não é meu costume escrever sobre assuntos pessoais neste espaço, privilegiando-se mormente o “nós” em contraponto ao “eu”. No entanto, o “eu” apenas possui sentido quando integrado num “nós”, e é por isso que tomo a liberdade de partilhar esta pequena reflexão.

2012 foi o ano da minha emigração. Esta, apesar de motivada principalmente por factores afectivos, foi determinada também pela falta de perspectivas no nosso maltratado país. Nestes tempos pós-modernos, o mercado invade todas as dimensões da nossa vida. O movimento triunfa sobre a estabilidade, o fluxo sobre o enraizamento, o efémero sobre o perene, o descartável sobre o durável. Tentam-nos vender esta realidade como inevitável, chegando até à desfaçatez de apresentar o desenraizamento forçado de centenas de milhares de portugueses como algo positivo, como uma projeção de dinamismo e modernidade. Relativamente a esta, estamos perante uma meia verdade: de facto, fluxos migratórios desta magnitude são um fruto da modernidade. Todavia, não são fenómenos positivos para as populações que os protagonizam.

Depois de passar um mês em Portugal, à incomensurável alegria de retornar ao meu país, de rever família e amigos somou-se a tristeza de constatar que estes se dividem em três grupos: os que já emigraram, os que estão em vias de emigrar e os que consideram emigrar nos próximos tempos. Somou-se ainda a angústia de perceber que quem fica é porque não pode fazer de outro modo. A mágoa de verificar que, em Portugal, não se vive. Sobrevive-se. E a custo.

Não vou gastar latim com o desperdício de talento, de trabalho, de recursos públicos gastos na educação destes recém-expatriados. Essa vertente económica – extremamente relevante, não haja dúvida – é sobejamente conhecida e quotidianamente debatida. O mais chocante não é ver os esforços de uma geração serem atirados pela janela fora. Não. O mais entristecedor é ver a geração que lhe segue desistir das comunidades que a viram nascer e crescer. É ver uma casta de mercenários políticos a alimentarem-se do sangue de uma nação de trabalhadores que há mais de 30 anos ousou sonhar e chegou a ser o farol da Europa. Uma casta de parasitas que ainda hoje ajusta contas com essa heróica etapa histórica.

No entanto, não era meu propósito imbuir este texto de um tom lacrimal. Se calhar, é tarde demais. Que fique, porém, uma mensagem de esperança: se esta elite mantém a sua hegemonia é porque os trabalhadores e jovens portugueses ainda não exprimiram toda a força elemental que guardam nos cantos mais recônditos do seu coração. Se a corja de usurários e respectivos serventuários se mantêm no púlpito do poder é porque a avalanche da vontade de poder popular ainda não conheceu o seu momento libertador.

Chegará o dia em que recuperaremos o nosso país, aliados aos outros trabalhadores europeus. Chegará a hora de um outro Portugal, de uma outra Europa. Caso contrário, nada vale a pena.

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