Novas da lusodistopia – até quando vamos permitir isto?

Faz agora mais de um ano, um Secretário de Estado da Juventude aconselhava os jovens portugueses a emigrar. Agora, surge um Secretário de Estado da Saúde a admoestar os portugueses por recorrerem excessivamente ao SNS.

Não fosse tão grave e até daria para rir! Quer dizer, o problema da insustentabilidade e da baixa qualidade do SNS não decorre do sistemático subfinanciamento estatal, mas sim da irresponsabilidade dos utentes, que parecem ter algum fetiche patológico pelo cheirinho a éter, por agulhas, gaze e outros utensílios clínicos.

Estas declarações, além de absolutamente  insultuosas, demonstram como a política desistiu de si mesma, isto é, o mercado tornou-se o único poder realmente operante, que investe agora sobre um dos últimos bastiões da presença estatal: a saúde, que, tal como a educação, é um espaço de mercado não despiciendo.

Reflectem também um dos pilares do pensamento político liberal nesta época de capitalismo total: o indivíduo é perspectivado como um ser infantilizado, reificado, desprovido de vontade própria, cuja vida, em todas as suas dimensões, terá de ser regulada pelo omnipotente mercado ou, neste caso, pelo poder político a ele subordinado, na vida e na morte, na saúde e na doença. É, portanto, uma nova forma de totalitarismo, diferente dos totalitarismos do século XX, mas não menos ameaçador.

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