A crise ataca no “paraíso social-democrata”: o caso da Finlândia

Pensavam que os países nórdicos eram imunes à crise do sistema capitalista? Desenganem-se.

Vejamos o exemplo da Finlândia: despedimentos, rescisões “amigáveis” e lay-offs aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui, a título de exemplo. A central sindical finlandesa, SAK, estima que se tenham perdido mais de 12.000 postos de trabalho só entre Janeiro e Outubro do presente ano. Nem a “menina dos olhos de ouro” do capitalismo finlandês, a Nokia (que, actualmente, é tão finlandesa como eu sou burundiano), escapa à razia e lança para o desemprego 3700 trabalhadores finlandeses, como parte de um plano global de despedimentos.

O Helsinki Times, nas notícias supra-referenciadas, reduz as motivações para os despedimentos à sua crua essência: geralmente, os lucros não atingem os níveis estipulados, pelo que temos de avançar com reduções nos custos do trabalho. Curto e grosso. A melhor maneira de perscrutar a mente da burguesia é ler a secção de economia do jornal da manhã, resistindo ao frequente impulso, especialmente para humanistas como eu próprio, de a enfiar directamente no cesto da reciclagem.

Logicamente que uma estrutura sólida de segurança social obvia a um cenário de convulsão popular, como acontece no sul da Europa. Uma carga fiscal relativamente alta, acompanhada de um sistema de controlo fiscal eficaz e a manutenção de um tecido produtivo dinâmico, mesmo após a entrada na UE, permitiram ao estado finlandês fugir às cadeias da dívida pública. Pelo menos, por enquanto.

No entanto, na esfera política, a palavra-de-ordem é, também, a austeridade ou a chamada leikkauspolitiikkaa, a “política do corte”.

Isto faz com que se comece a instalar uma certa desconfiança para com as políticas liberais levadas a efeito até agora, com a agravante de a esquerda que se poderia assumir como alternativa à política do corte, a Aliança de Esquerda (comparsa do BE no Partido da Esquerda Europeia), participar num governo com social-democratas (SDP) e liberais/conservadores de direita (Coligação Nacional).

De facto, os esquerdistas controlam dois ministérios, o dos Transportes e o da Cultura. Prevê-se o despedimento de 150 trabalhadores da empresa pública ferroviária VR e lay-offs na empresa de aviação Finnair, cuja participação accionista maioritária pertence ao estado finlandês (55,8%). No Ministério da Cultura, sei por experiência própria que o paradigma do corte não se alterou (como já havia advertido há uns meses), pelo que, por exemplo, no sector dos museus se preveem ainda maiores limitações orçamentais para o próximo ano. A esquerda dobra-se, portanto, à politica do corte.

Enquanto isso, o Partido Comunista Finlandês (SKP) mantém-se relegado a um estatuto de marginalidade política, apesar de apresentar uma alternativa programática ao liberalismo.

Quem capitaliza, por conseguinte, a desconfiança perante a política liberal? O nacionalismo pindérico dos Verdadeiros Finlandeses, que criticam as políticas da UE, os cortes na saúde, educação, etc., e defendem a salvaguarda das funções sociais do estado. Obviamente que estas críticas são demagógicas, na medida em que os Verdadeiros Finlandeses não advogam nenhuma ruptura com o capitalismo. Parece-me que (advertindo embora que se trata de um fenómeno bastante complexo e a minha análise é meramente superficial) este partido consiste na expressão política de uma pequena-burguesia nativa esmagada pelo capital internacional, que capta os votos de sectores marginalizados provindos da classe trabalhadora (desempregados de longa duração, alcoólicos, etc. A traços largos, o que Marx chamava lumpenproletariado). Veicula um discurso xenófobo e, particularmente, islamofóbico. Ainda assim, como se vê, não é à toa que este partido se tornou a terceira força política no país, quadruplicou a sua influência social em menos de quatro anos e começa a ter um pé no movimento sindical.

Já era altura de a esquerda reflectir sobre estes dados e tentar perceber a relação de causalidade existente entre a capitulação da esquerda ao liberalismo e o sucesso do discurso demagógico da extrema-direita.

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