A ameaça liberal

Este texto foi publicado no jornal Praça Alta de 13 de novembro e escrito expressamente para esse efeito. Queria, porém, deixar claro que não concedo nenhum valor argumentativo às acusações de “extremista” ou “radical” num debate político. Estes conceitos são meramente relativos e o seu valor avalia-se consoante as condições em que se faz política e os objetivos a que nos propomos atingir com ela. Assim, ser-se “moderado” pode ser uma virtude em determinadas condições, enquanto noutras será cobardia ou estreiteza de horizontes. O tema ganhou nova atualidade com a prometida “caça ao radical”, na sequência da greve de 14 de novembro. O meu objetivo com este texto era demosntrar que o barrete do “extremismo” cabe nas cabeças de todos os quadrantes políticos, mas o mais ameaçador dos fanatismos, neste momento, é o liberal. Não pela “radicalidade” do pensamento liberal, mas pelos escopos que pretende alcançar: o roubo dos rendimentos de milhões de trabalhadores para que a acumulação de capital nas mãos da alta finança não estagne. 

Nos dias que correm, tornou-se habitual ouvirmos o plantão de comentadores do costume afirmar que, em tempos de crise, é necessário acautelarmo-nos contra os “extremismos”, os “fundamentalismos políticos” que se revigoram nestes períodos de decomposição social e aproveitam para se enraizar na sociedade, possibilitando o ressurgimento de monstros totalitários como o III Reich, o estalinismo ou o Estado Novo. Alguns casos pontuais, como o crescimento exponencial do partido neonazi grego Aurora Dourada, autorizam esta perspetiva. Todavia, em Portugal, a extrema-direita, constituída, na sua esmagadora maioria, por senis saudosistas do salazarismo, é uma anedota, uma sátira de si própria que é vista apenas por uma ínfima minoria da população como uma alternativa ao liberalismo. O que não quer dizer que a devamos menosprezar, quanto menos tolerar a sua presença no jogo democrático.

O meu argumento, porém, é de que a principal ameaça dos fundamentalismos políticos, das ideologias portadoras de verdades eternas e absolutas, não reside nos movimentos neofascistas ou salazaristas, mas sim no liberalismo centro-direita. A verdadeira ameaça não é a de os fanáticos poderem vir a tomar o poder. Eles já estão instalados em São Bento e Belém.

O fanatismo liberal aplica um programa de roubo dos salários, exacerbador das desigualdades sociais, destruidor das componentes sociais do Estado, agindo como um verdadeiro agente do capital financeiro no interior do governo. Toda a economia é adaptada aos requisitos da elite financeira, que nunca se esquece de evocar o superior “interesse nacional”. Por vezes, os extremistas aproveitam-se das estruturas democráticas de um determinado país, condicionando a sua atividade e capacidade de manobra – caso dos países do sul da Europa – mas, outras vezes, quando a democracia lhes foge à trela, aplicam uma receita mais musculada – caso do Chile, com a ditadura de Pinochet, e outros países da América Latina. Nunca é demais lembrar que a musa de Vítor Gaspar, academicamente falando, é Milton Friedman, nada mais nada menos que um dos progenitores do extremo-liberalismo e mentor ideológico da política económica do regime de Pinochet nos seus primeiros anos.

Tal como, no passado, Hitler justificava a eugenia, a engenharia genética, a deportação de umas populações e o extermínio de outras, com o imperativo de uma espécie de “ciência racial”, e Estaline justificava a perseguição e execução de reputados dirigentes revolucionários bolcheviques com o superior interesse da Revolução, os fundamentalistas liberais justificam a sangria de países inteiros, o desmantelamento e venda a retalho das respetivas economias e o empobrecimento súbito e atroz de milhões de trabalhadores, com o mais elevado interesse da nação, que tem de, a todo o custo, apaziguar os “mercados”.

Tal como Hitler sacrificava vidas no altar da Raça, Salazar no da Pátria (ou, pelo menos, da visão estreita que tinha desta) e Estaline no da Revolução (da qual ele foi uma grotesca deformação), os fundamentalistas liberais prestam culto aos “mercados”, entes omnipresentes e amórficos, que regulam toda a vida política e social do alto dos seus tronos e cujos desejos nunca devem ser questionados, sob perigo de anátema.

Da mesma forma que Hitler descartava os seus adversários como “inimigos da Raça”, Salazar como “agentes do comunismo internacional” e Estaline como “agentes da CIA”, os fundamentalistas liberais simplesmente argumentam que os detratores desta sangria austeritária advogam a implantação de regimes como o da Coreia do Norte ou, na melhor das hipóteses, o de Cuba. São um reles bando de “vermelhos”, de “comunas”, cujas posições nem devem ser tidas em conta. Isto reflete não apenas fanatismo político, mas também ausência de argumentos racionais para responder à evidência, cada vez mais clara, de que há alternativas ao caminho até agora seguido.

Há umas semanas atrás, cheguei inclusive a deparar com um militante da JSD, essa escolinha do oportunismo mais abjeto, a defender a retirada de Marx dos programas de Economia no ensino superior (apesar da renovada atualidade que a presente crise conferiu à crítica marxista do sistema capitalista) e até, não sei se em jeito de gozo ou não, defendendo a queima dos livros do filósofo alemão. Portanto, a censura do trabalho de um dos pensadores mais influentes da época contemporânea, tudo porque as suas propostas políticas para a superação deste sistema económico não agradam aos liberais. As palas que estes fanáticos têm nos olhos impedem-nos, porém, de se aperceber que Marx não foi apenas um teórico político, mas também um pensador que influenciou todos os quadrantes das ciências sociais, desde a Economia até à História, passando pela Sociologia e Filosofia. Da parte que me toca, é-me difícil, como será a um largo número de historiadores, imaginar a historiografia contemporânea sem o contributo de Marx, nomeadamente, no âmbito do estudo das sociedades humanas, interpretação das suas dinâmicas internas, estruturas de poder e a sua relação com a ideologia, etc. E atenção, isto não quer dizer todos os historiadores que reconheçam valor teórico ao trabalho de Marx sejam recipientes acríticos dos postulados teóricos marxistas ou abnegados militantes de algum partido do operariado revolucionário. Mas decerto que para os extremistas liberais da JSD serão todos potenciais “comunas”. É assim a cegueira e o pedantismo ignorante desta gente, comparável ao que de ideologicamente mais monstruoso a humanidade produziu.

Estes fanáticos devem ser parados. Tal como o nazi-fascismo dos anos 20 e 30 do século passado encontrou raízes nos nacionalismos etnocêntricos de finais do século XIX/inícios do século XX, o fanatismo liberal brotou das sangrentas experiências económico-políticas dos finais do século XX e aproveitou esta crise para se estender a seu bel-prazer. Os extremismos do século XX não foram derrubados a tempo e todos sabemos no que eles foram dar. Iremos dar oportunidade a fanáticos como Vítor Gaspar ou Passos Coelho de arruinar as nossas vidas e destruir tudo o que nos rodeia, num retrocesso civilizacional nunca antes visto?

Depende de nós. Em política e em história, não há inevitabilidades.

One thought on “A ameaça liberal

  1. Pingback: Novas da lusodistopia – até quando vamos permitir isto? | Sentidos Distintos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s