Sobre a carga policial

Este caso da carga policial em São Bento já teve uma virtude; a de trazer muito troglodita cripto-fascizóide para fora da sua caverna. No futuro, será mais fácil identificá-los.

Existirão sempre porta-estandartes da “objectividade” e da “razão” que julgam conseguir justificar o espancamento aleatório de milhares de pessoas com os actos reprováveis de uma minoria violenta. Eu não entro nessa discussão, porque é inútil argumentar com quem está convencido à partida. Basta ler os relatos individuais que já circulam pela Internet (por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui. E isto foi só uma pesquisa de dois minutos) para ver que a PSP não interveio para “acalmar os ânimos” (só se fosse com um calmante à martelo) ou sequer para isolar o grupelho de calceteiros ao inverso. O Henrique Monteiro (o Expresso parece coleccionar trogloditas de direita. Depois do Raposo, vem esta ave) afirma que “um polícia, depois de hora e meia a levar pedradas, [não] tem discernimento para, durante uma carga, saber quem prevaricou e não prevaricou”. Pois, se não tem discernimento e,  muito menos, o cuidado em tentar separar o trigo do joio, esse indivíduo não pode ser polícia, pois a sua conduta põe em perigo cidadãos cumpridores da lei, como se viu. Mais, o sôr Monteiro nunca deve ter estado numa manifestação com cerca de 15.000 pessoas, se pensa que um aviso da polícia com um megafone chega sequer à primeira linha do aglomerado de manifestantes. É absolutamente ridículo pensar que isto teria algum efeito. Por exemplo, leia-se aqui: “Cá de baixo, posso-vos dar uma certeza, nenhuma pessoa com uma audição normal ouviu um único aviso. A polícia disparou cerca de 4 a 6 petardos pela manifestação e carregou. Como estávamos todos bem afastados, os CIDADÃOS PACÍFICOS não fugiram. Mas quando vi um pai a fugir com o filho no colo e a levar bastonadas percebi que quem estava atrás das viseiras já não eram pessoas”.

Enfim, o depoimento de quem vivenciou o sucesso vale mil vezes as verborreias de um homem de meia idade que escreve do conforto do seu sofá, enquanto embala um whisky escocês de 12 anos.

Como se justifica que, apesar de haverem, segundo Miguel Macedo, meia-dúzia de fundibulários (neste número, o ministro não mentiu), rodeados por polícias à paisana (já aqui, o ministro faltou à verdade), as detenções decupliquem, em espaços afastados por quilómetros de São Bento, para não falar dos trâmites pidescos que os detidos tiveram de cumprir no interior das esquadras?

Para aqueles trogloditas saídos do armário, num outro contexto histórico, Caxias e o Tarrafal seriam justificáveis à luz da “ordem” e da “segurança pública”. Debater com eles é como jogar xadrez com um pombo.

No entanto, a carga policial teve um objectivo bastante claro por parte do ministro Miguel Macedo: escamotear a dimensão da Greve Geral com as imagens de violência. Verdade seja dita, atingiu, pelo menos em parte, esse escopo, visto que, tanto à esquerda como à direita, se debate mais a carga do que as ilações políticas a tirar da adesão massiva à greve. É, ademais, preocupante o silêncio da CGTP, que se abstém de emitir uma palavra de solidariedade para com os trabalhadores que acompanharam o cortejo da Intersindical, mas resolveram ficar em frente da AR, porque o descontentamento não tem hora marcada.

Mas Macedo tinha ainda outro objectivo: a desmoralização, a criminalização e a despolitização do protesto. A violência repressiva é a última defesa de um executivo carente de legitimidade política, algo evidenciado por esta greve. Espero somente que os trabalhadores, reformados, jovens, desempregados, estudantes, etc., não se deixem intimidar pelos gorilas de azul. A transformação social nunca se deu sem sacrifício. Por vezes, o derradeiro. É preciso coragem para lutar, e, como dizia o outro, é preferível morrer em pé do que viver de joelhos.

Enfim, já muito foi escrito sobre isto e o caso parece-me tão claro, que pouco tenho a contribuir para o debate.

Mas querem falar de violência? Falemos, pois.

Num ano e meio, o número de portugueses com salários inferiores a 310 euros aumentou 11%. Isto é apenas um exemplo escolhido ao acaso, pois, infelizmente, não faltam dados objectivos para ilustrar o processo de pauperização que o país atravessa. Esta é a violência mais avassaladora que cai sobre os portugueses. Dói mais do que pedras e cacetetes e os responsáveis não só andam à solta, como nos governam e são protegidos pela estrutura repressiva do estado. Estes são os criminosos que devem ser presos e julgados.

A continuar assim, acredito que em breve não serão apenas uns putos de cara tapada a atirar pedras aos polícias, mas uma multidão em alvoroço, desesperada, esfomeada, armada com paus, pedras e outros instrumentos mais sofisticados, a exigir a cabeça dos seus carcereiros. Aí não haverá corpo de intervenção que lhes valha.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s