Lições de Setembro,Outubro e Novembro

Uma olhada fugaz pelos números basta para percebermos que ontem teve lugar uma grandiosa Greve Geral. Uma das maiores de sempre no país, atrevo-me a aventar.

Devemos, em primeiro lugar, contextualizar esta greve, que acontece numa época de alta mobilização da população trabalhadora e de crise na ordem institucional burguesa. Este último trimestre foi palco de duas das maiores manifestações populares de sempre, um cerco ao parlamento que obrigou os ratos da maioria PSD/CDS/PS a escapulir-se sub-repticiamente do hemiciclo, uma das maiores greves gerais que há memória e a maior manifestação de sempre em dia de greve geral. Isto sem contar os inúmeros protestos localizados que ocorreram numa base diária.

Mais importante que tudo, porém, é retirar as devidas conclusões políticas deste ascenso popular:

– o governo tem de se demitir. A maioria PSD/CDS-PP perdeu o apoio da sua base eleitoral, logo, a legitimidade democrática que sustentava o seu direito de governação. Com o governo, claro está, deve cair este orçamento criminoso que está em fase de apreciação.

– o movimento laboral deve passar à ofensiva e exigir um governo de esquerda, dos trabalhadores e para os trabalhadores, que anule e inverta as políticas aplicadas pelos sucessivos governos liberais. Um governo que suspenda o garrote que é a dívida pública externa; que nacionalize os sectores centrais da economia, especialmente os que foram privatizados recentemente, sem indemnizações para os abutres que se aproveitaram da situação; que nacionalize a banca; que julgue e prenda os políticos responsáveis pelo saque e endividamento do país; que acabe com as mordomias dos detentores de cargos públicos, como os deputados; que acabe com a fuga ao fisco por parte do capital; que taxe as transações financeiras; que agrave a taxa de IRC para o grande capital; que taxe os dividendos dos grandes accionistas dos monopólios capitalistas; entre outras medidas.

Escusado será dizer que tudo isto implica que o memorando de traição deverá ser relegado para o devido sítio: o caixote do lixo.

O governo está ciente da sua debilidade e isso é verificável no nervosismo com que as forças da ordem burguesa enfrentaram a greve. Nervosismo que se manifestou nos vários atentados e pressões sobre os piquetes de greve e na brutal carga policial que se abateu sobre os manifestantes reunidos defronte da Assembleia da República. Antecipando-me às invectivas das virgens ofendidas do “pacifismo”, queria deixar uma coisa clara: aqueles que achavam que a resistência à ofensiva do capital se iria realizar sem sobressaltos, por vezes violentos, que se desenganem. Não há movimento histórico de resistência às classes exploradoras sem um grau variável de violência. A nossa compreensão e solidariedade só pode estar com aqueles contra quem os cacetetes se abatem, por pouco que gostemos de adolescentes pseudo-anarquistas de cara tapada. Nesta altura, a nossa consciência de classe deve estar mais aguçada do que nunca, e a nossa empatia deve ser dirigida aos trabalhadores em protesto, desde os que sabem a Internacional de cor e leram os 3 volumes d’O Capital até aos sobreexaltados que atiram pedras à polícia ou os estivadores que fazem a saudação romana quando ouvem o hino nacional. Mais, tenham presente que a polícia vai sempre desencantar um grupo de “profissionais da desordem” para legitimar cargas e dispersões de manifestações legítimas de descontentamento e revolta.

Antes profissionais da desordem do que felizes escravos de uma ordem decrépita.

Da minha parte, não acredito em “objectividade” de análise e a minha perspectiva será sempre tendenciosa, em favor dos trabalhadores em protesto, até daqueles sectores para com os quais não nutro especial simpatia política. Quem quiser pretensões (frustradas) de “objectividade”, que leia os pasquins do Belmiro de Azevedo ou do Pinto Balsemão.

De qualquer forma, o mais importante são as conclusões políticas a retirar da greve de milhões de trabalhadores que se ergueram corajosamente contra a injustiça e o roubo descarado. Não caiamos na armadilha dos media convencionais, que tentam ofuscar isto com as imagens mais TV-friendly dos caixotes do lixo a arder ou os petardos a explodir.

Uma última nota: a importância de pela primeira vez se ter concertado uma acção de protesto dos trabalhadores a nível europeu, colhendo, inclusive, a solidariedade de camaradas latino-americanos. Isto demonstra que o internacionalismo proletário não é uma vaga palavra de ordem, mas uma necessidade objectiva para o movimento laboral internacional.

One thought on “Lições de Setembro,Outubro e Novembro

  1. Pingback: Sobre a carga policial | Sentidos Distintos

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