Uma última palavra antes da Greve Geral

É convicção minha que os homens e as sociedades são os agentes da sua própria história, enquadrados por uma série de condicionantes de ordem natural e económica. É nesse sentido que afirmo que a Greve Geral de 14 de Novembro, bem como todas as acções de luta que a sucederão são da maior importância para os trabalhadores portugueses. Lamentavelmente, estou longe do torrão pátrio neste momento tão importante para a minha classe, a classe trabalhadora, que enfrenta a maior ofensiva de que há memória desde a Idade das Trevas salazarista.

Estou saturado, ou melhor, revoltado, pois sempre que contacto com amigos, família e camaradas de Portugal ouço palavras de receio e desespero. É o amigo que terminou um curso no qual investiu milhares de euros mas está desempregado e sem direito a qualquer apoio social; é o familiar que está doente, desempregado e sem dinheiro para consultar um médico ou sequer comprar a medicação necessária; é o camarada que tirita de frio na própria casa, pois não tem dinheiro para pagar a conta de electricidade; é o companheiro que poupou a vida toda para poder comprar um modesto apartamento e agora terá de o entregar ao banco; é o conhecido que pôs uma bala na cabeça, porquanto achava que não havia outra saída. É o medo generalizado de um futuro aparentemente negro. Enfim, é uma infinidade de dramas pessoais e injustiças que fazem a raiva crescer-me nos dentes a cada dia que passa.

Simultaneamente, ouço as logorreias habituais do idiota petulante do BPI e dos abutres liberais que compõem este governo.

Assisto a tudo isto de longe, a muitos milhares de quilómetros de distância, onde as dificuldades existem, está claro, mas nunca com a intensidade que assumem no sul da Europa. Isso é o que me dói mais. A sensação de impotência. Penso que escrever para este singelo espaço é o mínimo que posso fazer pelos meus camaradas, amigos e família que enfrentam tais tribulações. Se pelo menos uma pessoa ler este texto e se decidir de forma resoluta a aderir à próxima greve, posso reclamar uma vitória.

Mas também ouço frequentemente palavras de revolta, de ódio inclusive, e isto é o mais importante, pois é da revolta e do ódio que nascerá a esperança num futuro melhor. O tempo do diálogo terminou, a não ser para traidores como João Proença e outros da mesma cepa. Há interesses em confronto que não podem ser conciliados e apenas se resolverão na arena da guerra de classes.

Há os que defendem a espoliação do património público, a destruição dos sectores sociais do Estado e reforma (leia-se, desmantelamento) da legislação laboral, para ir ao encontro dos interesses da burguesia, isto é, da estabilização ou do crescimento da taxa de lucro. Há os que saqueiam os rendimentos dos trabalhadores para pagar uma dívida contraída por anos de governação liberal, com a subserviência a Bruxelas e consequente destruição do tecido produtivo, com o alimentar de clientelas políticas, com os milhões que foram sendo enfiados no rabo de grupos capitalistas absolutamente parasitários, com o esbulho do erário público através das PPP’s, com auto-estradas e estádios de futebol, e um longuíssimo etc., que nunca caberia neste formato de texto.

Depois, há os que são afectados por tudo isto e que são sempre chamados ao balcão quando o jogo das elites dá prejuízo. Aqui radica a nossa miséria, na incapacidade de uma resposta atempada ao saque liberal.

Mas ainda vamos a tempo! A resposta tem de ser célere e dada de forma perentória. Temos de gritar bem alto: chega de roubalheira, queremos o que é nosso! A Greve Geral que se aproxima é um passo nesta luta. É nos momentos de maior adversidade que se vê o real carácter das classes laboriosas de uma nação. Serão os trabalhadores portugueses um povo de “brandos costumes”, isto é, uns escravos felizes, como sustentam os Salazares de ontem e de hoje? Ou saberão bater o pé e defender a sua dignidade, que não é outra coisa senão os seus interesses de classe?

Quando uns perdem, perdem todos. Se os estivadores de Lisboa perderem hoje, o resto do sector será arrastado para a precariedade amanhã. Se os trabalhadores da Função Pública perderem uma fracção dos seus salários hoje, os do privado perderão amanhã. A derrota de um sector profissional afecta a classe trabalhadora como um todo. É por isso que a participação de todos os trabalhadores na Greve Geral e nas lutas subsequentes é imperiosa.

Custa perder um dia de salário para fazer greve? Certamente que sim, especialmente quando essa quantia faz tanta diferença ao fim do mês. Mas se não lutarmos não será apenas um dia que eles nos tirarão do vencimento, serão meses e anos. Um dia de greve não resolve a calamitosa situação económica em que nos encontramos? Pois está claro, nem é isso que se espera. Mas uma greve vitoriosa aprofunda a luta contra a classe que nos arrasta há décadas de crise em crise, de miséria em miséria, até ao barbarismo mais inimaginável. Uma classe que nunca resolverá as contradições intrínsecas ao seu próprio sistema económico. Apenas o poder dos trabalhadores poderá “resolver” a crise. Greves, piquetes e manifestações são pequenas etapas  no avanço da classe trabalhadora. E apenas a classe trabalhadora será capaz de resolver as contradições de um sistema económico e de um regime político que não lhe serve. Quem pensa o contrário é um fantasista, um utópico.

Assim, aos que estão indecisos sobre a participação na greve, pensem, pelo menos, no tal amigo, no tal camarada, no tal companheiro, no tal familiar ou no tal conhecido que enfrenta a cada dia o perigo da pobreza mais profunda. Mais que não seja, que pensem em si próprios.

Os dias maus vão acabar, mas apenas se toda a gente se juntar.

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