Os lobos em pele de cordeiro

Texto publicado no jornal Praça Alta de 10 de Outubro.

Sejamos francos: é uma questão de tempo até este governo cair. Escrevo na ressaca de uma das maiores manifestações desde o período revolucionário, a 15 de Setembro, a qual apenas pude acompanhar à distância de muitos quilómetros, lamentavelmente.

Na supra mencionada data, quase um milhão de portugueses, cerca de um quinto da população activa, bateu o pé face à política de pauperização praticada pelos sucessivos governos. Os portugueses dirigiram um rotundo “Basta!” à falta de vergonha, ao furto institucionalizado e à perda de soberania nacional.

Tal como no 12 de Março de 2011 a chamada “Geração à Rasca” ditou o ocaso da governação socrática, tenho confiança de que o 15 de Setembro sinaliza o início do Outono do governo de Passos Coelho.

O porvir depende dos trabalhadores portugueses.

É importante lembrar que as tarefas que estes enfrentam não são apenas de libertação nacional, mas, diria até, de sobrevivência colectiva, e, portanto, não se restringem ao derrube de Passos Coelho.

Passos Coelho é apenas o Conde de Andeiro desta trágica narrativa. É somente o moço de recados dos organismos supranacionais que desvirtuam e esvaziam de conteúdo a democracia portuguesa. No contexto actual, esses organismos são representados no nosso país pela dita troika, designativo que já penetrou o léxico quotidiano luso.

Para derrotar a troika, não basta estoquear o Conde de Andeiro, porquanto outras criaturas invertebradas, semelhantes a Passos Coelho, rapidamente tomariam o seu lugar, em troca de uns trocos e umas palmadinhas nas costas.

A resolução da questão depende, portanto, da expulsão dos ocupantes do nosso país. Da erradicação da troika, bem como de todos os seus esbirros, desde os que actuam no plano directamente político até aos que nos doutrinam e entorpecem os sentidos nos meios de comunicação social.

Desta forma, devemos estar atentos aos lobos em pele de cordeiro. Àqueles que outrora assinaram o pacto de traição que trouxe o diabo para Portugal e hoje agem como se nada tivessem a ver com o assunto. Enfim, aos troikistas de ontem, indignados de hoje.

Tendo em conta que o PS foi o primeiro anfitrião da troika no nosso país, não deixou de ser um pouco confuso ver várias altas figuras deste partido demonstrar a sua simpatia e até participar num protesto cujo lema era “Que se lixe a Troika!”. Porém, estes contorcionistas da política não são parvos, atente-se bem.

Mal se suspeita da queda de Passos Coelho, mal se torna perceptível um leve odor à pólvora da revolta, os socialistas-do-discurso-de-ocasião tomam os seus postos e põem-se em bicos de pé para encabeçar algo que nunca realmente foram: oposição. Mas, ainda assim, António José Seguro está perfeitamente consciente que, na actual correlação de forças, a revolta não traria grande vantagem ao PS (pois quero acreditar que os portugueses não têm a memória assim tão curta e recordam-se bem de Sócrates, outro campeão da austeridade), além de pôr em cheque as cordiais relações com os nossos estimados ocupantes.

Sendo assim, não é motivo de surpresa que, depois de altos luminares “socialistas” como Manuel Alegre participarem numa manifestação que exige o derrube da troika, Seguro afirme estar “apaziguado” com a queda das (mal) intencionadas alterações na TSU. Ora bem, apesar de saber bem que tem de aproveitar a onda de contestação popular para sobreviver politicamente, não lhe interessa que este governo caia “na rua”, especialmente agora, quando provavelmente lhe não renderia uma ascensão eleitoral significante, sendo a abstenção e a esquerda anti-troika os principais beneficiários dumas hipotéticas eleições neste momento. Para Seguro, é preferível esperar que a tempestade amaine, desgastar este governo ao limite, até que as sondagens proporcionem indícios mais favoráveis a uma futura governação “socialista”, de preferência com maioria absoluta. No geral, é esta a política traiçoeira, cobarde, dos “socialistas”, sempre ao serviço deste regime gangrenado.

Mais, é a política traidora e colaboracionista dos tempos de Sócrates, evocada nas recentes declarações de Mário Soares, ao dizer que “é melhor que [o governo] não caia por enquanto”, porque, segundo o mesmo, “a troika ainda deve algumas coisas de dinheiro que vai pagar [sic]”! Portanto, com esta formulação caricata (coisas de dinheiro que vai pagar!), Soares traduz a quintessência da política “socialista” – a subserviência aos ditames dos prezados cavalheiros que usurpam o poder político, em troca de uma moedinha, ou, aprimorando de sobremaneira a nossa prosa, dumas “coisas de dinheiro” que eles esporadicamente pagam.

Enquanto isso, tudo o que o país produz serve para pagar a esses gentlemen, além de alimentar outros usurários obesos, através do serviço da dívida pública.

O que foi exposto acima não é nada de inovador, posto que este tem sido o padrão geral da história política portuguesa no pós-25 de Abril. As elites económicas lusas (o qualificativo “burguesia”, tão em desuso nos últimos anos, continua a adaptar-se que nem uma luva a este sector populacional, pesem as discordâncias dos que acham que a luta de classes é coisa do século XIX), após a queda do salazarismo, serviram-se de duas armas principais para sujeitar os ascensos do movimento laboral: primeiro, o CDS-PP/PSD, que agem como autênticos camartelos políticos, demolindo tudo o que seja direito laboral; depois, temos o PS, uma espécie de “polícia bom” num qualquer manhoso filme de Hollywood, que aplica um receituário liberal, mas com um pouco de analgésico e retórica progressista.

Caso o padrão se continue a repetir, os lobos cobertos em pele de cordeiro continuarão a instrumentalizar a dissidência, usar a sua projecção mediática para criar a ilusão que encabeçam a revolta popular, aproveitar-se do divisionismo reinante à esquerda – fazendo uso da falácia do “voto útil” – e canalizar o descontentamento para o voto no PS.

E voilá, continuaremos a ter um Portugal comandado à distância por instituições antidemocráticas supranacionais, com um governo nacional igualmente servil, mas legitimado por uma farsa de democracia cada vez mais teatral.

Quase parece um exercício de futurologia, mas a verdade é que qualquer análise, por muito superficial que seja, da história política recente de Portugal autoriza este dramático prognóstico.

Quando será que os trabalhadores portugueses deixarão de cair na cantiga do bandido e quebrarão este ciclo?

 

P.S: Este texto foi escrito antes da grande manifestação da CGTP no Terreiro do Paço, a 29 de Setembro, que consistiu num reforço adicional para a constatação que, caso o povo continue a lutar, este governo tem os dias contados. A Greve Geral que se anuncia poderá ser a machadada necessária. (nota adicionada em 29/09/12)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s