Do patriotismo do vende-pátrias (com uma especial dedicatória a Passos Coelho, sempiterna musa da nossa inspiração)

Portugal é uma palavra barata na boca de um político. Melhor, não de um político, porque políticos devíamos ser todos nós, se queremos expulsar do poleiro esta gentalha que nos suga até ao tutano há já demasiadas décadas. Enfim, a Pátria é uma commodity muito barata na sórdida boca de um vende-pátrias.

Para o vende-pátrias, ou para os “vendilhões do Estado”, como já foram justamente apelidados, Portugal vende-se barato, especialmente se for aos capatazes da alta finança germânica. A esses, o vende-pátrias vende o país a retalho, às prestações e até lhes paga para comprar. Sempre com o mui altíssimo interesse da Pátria na boca, pois está claro.

Após regurgitar o seu amor a Portugal num encontro de excelsos deputados da Nação, a muitos decibéis e à hora do Telejornal, como convém, para que a populaça tenha oportunidade de confirmar o seu inquebrável compromisso com o país, o vende-pátrias vende a semente, a enxada e a colheita a um banqueiro alemão. Sem que este precise de insistir muito, vende-lhe também a mão do camponês, em nome da fraternidade europeia e da responsabilidade para com os nossos parceiros na servidão.

Depois de bater no peito com as duas mãos, tal qual macho alfa, apregoando o seu inabalável vínculo ao Povo Português (assim, em maiúsculas e tudo) e ao seu futuro como coletividade, o vende-pátrias rasteja até Berlim e beija as imponentes nádegas da chanceler alemã. Em nome dessa superior ideia e coisa material que dá pelo nome de Pátria.

Para o vende-pátrias, a Pátria vende-se barato e às prestações. O seu preço, ao contrário do que acontece em outros campos da economia liberal, que, no fundo, é a economia do porco filho da puta, não se condiciona pela lei da oferta e da procura, mas varia, isso sim, em proporção inversa com os benefícios que se perfilam na linha do horizonte do vende-pátrias e dos seus validos. Por exemplo, a venda de uma mão cheia de empresas estatais a um trust pertencente a amigos, de preferência da mesma cor partidária ou loja maçónica, por uma módica quantia previamente acertada, equivale a uma posição proeminente no conselho de administração desse mesmo trust a quem vendeu as empresas públicas ao preço da chuva, com direito a uma remuneração deveras choruda, beneficiando, assim, da mesma venda que decidiu enquanto membro do governo.

Por isso, como se pode facilmente perceber, o vende-pátrias dá muito valor à Pátria. Em última análise, é esta que lhe rende uns belos milhões numa conta da Holanda ou Suíça. Por consequência, ele avalia o valor da Pátria em milhões de euros, não em sentimentos de pertença ou amor ao país (como nós, reles comuns), já que estes não são quantificáveis e rendem pouco na conta bancária.

É, por isso mesmo, injusto dizer que vende-pátrias não valoriza a Pátria. Pelo contrário, ela põe-lhe a comida na mesa e o iate na marina. Os compradores, lusos, britânicos ou teutónicos, também ganham, pois compram-na barata e apenas têm de partilhar uma fatia do bolo com o vende-pátrias, mais tarde, quando liberto das correntes responsabilizadoras do exercício do poder público.

A quem fica caro, já todos nós sabemos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s