Perdoem-me a resmunguice…

Depois de gastar grande parte da minha juventude envolvido em projectos políticos, resolvi afastar-me da militância organizada. A bem dizer, não me afastei da política em si, pois “fazer política”, em última análise, é ter opiniões e uma visão, por muito difusa que possa parecer aos outros, do que queremos para o mundo e, acima de tudo, para nós e aqueles que nos são mais próximos. A minha visão não mudou substancialmente ao longo dos anos, mas estar organizado partidariamente deixou de fazer sentido para mim. Pelo menos, no contexto político actual.

Na devida altura, explicitei as razões da consumação da minha saída do BE. Tanto as políticas como as organizativas. De uma assentada, as primeiras resumiam-se à conformação do partido a um regime que cai de podre e as segundas à tendência crescente para a burocratização e o carreirismo, enfermidades que corroem o BE desde há muito. Não me arrependi da minha decisão e os desenvolvimentos posteriores confirmam a sua justeza. Veja-se a recente troca de galhardetes entre as comadres bloquistas, após o anúncio da saída de cena do Grande Líder Louçã.

Há ainda um outro factor que me afasta da esquerda organizada: o nauseante messianismo que a enforma e a hipocrisia que o acompanha. Não são atributos idiossincráticos do BE – escuso de escalpelizar o modus operandi de organizações estalinistas como o PCP – mas foi naquele partido que experienciei o que há de pior na política organizada. Nem tudo foi mau, obviamente, mas os bons momentos não apagam as podridões que testemunhei.

Digo-o com frontalidade: não me envolvi na política para “mudar o mundo”, genericamente falando. Não sonho com um planeta “de todas as cores”, blá, blá, blá, onde tod@s sejamos felizes, contentes e saltitantes. Muito menos luto por uma ideia abstracta de “povo”. Aliás, a minha conduta pessoal até é, por vezes, bastante misantrópica e olho com desdém a mediocridade da maioria dos indivíduos que compõem o chamado “povo”.

Muito simplesmente, faço política porque quero alterar a minha situação. Porque quero que aqueles que me são mais próximos tenham uma vida melhor. Porque tenho consciência que o modo de organização que norteia a nossa sociedade é absolutamente insano e nefasto para a maioria da população, isto é, para a maioria daqueles que me rodeiam. Faço política porque quero sujeitar, vergar e destruir aqueles que me tolhem o caminho. No final, é uma atitude intermediária entre a vontade de poder de Nietzsche e a emancipação proletária de Marx, o que me pode tornar um alvo tanto para a direita como para a esquerda.

Reflectirá a minha posição um individualismo extremo e um pendor para o egoísmo? Quiçá. Mas, ao menos, não ando a prometer um mundo novo em vésperas de eleições, para me resignar à “responsabilidade governativa” nos quatro anos que se seguem. Não auguro o nascimento de uma “esquerda moderna, livre e democrática”, quando na verdade apenas milito num partido para agigantar um ego já de si insuflado.

Perdoem-me a resmunguice, mas já não há paciência para estes carreiristas armados em Santos dos Últimos Dias.

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