Breves notas sobre as eleições na Grécia

Ainda não digeri suficientemente os resultados das eleições gregas, mas penso ter condições para partilhar um par de reflexões.

Primeiro, a chantagem acabou por vingar, mas por pouco. Todos os meios propagandísticos da Europa de Merkel foram canalizados para a Grécia, exercendo uma pressão incomensurável sobre as decisões do seu povo. Os resultados da Nova Democracia reflectem esse extenuante trabalho de dissuasão. Mas, como já disse, foi por muito pouco.

Já li muito sobre a coligação que chegou em segundo lugar, a Syriza. Li críticas acertadas, outras injustas, loas num tom excessivamente eufórico e tentativas de justaposição mecânica ao cenário português, fazendo equivaler o que simplesmente não é equivalente.

A Syriza não é de longe o meu partido de eleição. Sou crítico da sua posição pró-UE e da sua insistência em tentar aparentar responsabilidade aos olhos daqueles que nos esmagam, à semelhança de alguns partidos da esquerda portuguesa.

Todavia, há uma conclusão que nem todas denúncias do carácter social-democrata ou capitulacionista do programa da Syriza podem escamotear.

Esta coligação teve como prioridade o que realmente deve ser prioridade: a derrota da Troika e dos seus governos, através de um governo de esquerda, e o repúdio de uma dívida soberana profundamente injusta. Na Grécia, como em Portugal, estas considerações políticas devem estar à frente de todas as outras. As incongruências internas do programa da Syriza seriam resolvidas pela prática política, diapasão mais eficiente do que mil e um comunicados do Comité Central do KKE que, mais do que outra coisa, se esforçava em enumerar desculpas para o sectarismo. Os resultados deste partido reflectem o seu erro, ao perderem metade dos seus votantes em apenas um mês.

Enfim, é uma vitória agridoce, como diz o Daniel Maciel, e estes resultados lembram-me uma frase feita, porventura demasiado simplista, que nos diz que “Se votar mudasse alguma coisa, o voto já teria sido proibido”.

Esta foi apenas a primeira de muitas tentativas de sacudir o jugo austeritário da cabeça dos gregos. Estes, estou certo, encontrarão formas, talvez menos institucionais, de se libertar das cadeias que lhes torvam o movimento.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s