O sectarismo: cegueira ou falta de pontaria?

Esta é uma das análises mais tacanhas que já tive oportunidade de ler sobre o movimento dos “indignados”. Caso figurasse num qualquer pasquim do centro ou da direita não gastaria dois minutos a escrever sobre isto, mas o facto de ter sido publicado no órgão oficial do maior partido da esquerda portuguesa leva-me a redigir uma ou duas notas sobre o arrazoado de Albano Nunes.

O cronista começa por criticar (justamente, acrescento) o apagamento que os media do capital consagraram ao protesto do PCP, no Porto, a 12 de Maio. Contrapõe esse blackout (estrangeirismo em voga depois do escândalo de Miguel Relvas e o Público) ao mediatismo da manifestação da “Primavera Global”, em Lisboa (e em várias cidades por esse mundo fora), que teve lugar no mesmo dia.

Conclui, grosseira e apressadamente, que este género de movimentos consiste numa “manobra do capital” para afastar os trabalhadores da luta consciente e organizada.

O nível de mesquinhice na análise de Albano Nunes é estonteante. Primeiro, denunciando (mais uma vez, justamente) a apologia da UE feita por determinados sectores da esquerda, em nome de um “europeísmo de esquerda”, o autor deixa implícito que a manutenção de uma frente no marco nacional inviabiliza a integração numa frente mais alargada, que internacionalize a resistência. Isto ao mesmo tempo que critica o Partido da Esquerda Europeia, não por englobar no seu seio partidos que compactuam com o neoliberalismo, como a Aliança de Esquerda finlandesa, mas meramente por ser uma instituição “supranacional”. É uma perspectiva política profundamente nacionalista e, em consequência, anti-marxista. As tarefas políticas nacionais e internacionais complementam-se como partes de um todo e essa realidade dever-se-ia reflectir no plano organizativo. Ao invés de uma política genuinamente internacionalista, Albano Nunes avança a táctica do “cada macaco no seu galho”, muito ao estilo do que Lenin outrora apelidava, pejorativamente, de “social-chauvinismo”. O internacionalismo, por seu lado, é resumido a um vago apelo à “solidariedade e a acção convergente no plano internacional”.

Por outro lado, o autor critica as tendências “socialdemocratizantes” de movimentos como o da “Primavera Global”. Esquece-se, porém, que, no passado, movimentos análogos, não obstante a sua indefinição programática, puseram à discussão propostas políticas como a recusa do pagamento da dívida externa, que nenhum dos maiores partidos de esquerda defende, ou a nacionalização da banca, que, dos mesmos, somente o PCP defende. Albano Nunes denuncia acrimoniosamente “o espontaneismo e o movimentismo inconsequente” desta espécie de agremiações, olvidando, de igual modo, que a atitude de um partido operário marxista deveria centrar-se na canalização desse espontaneismo para a luta organizada.

Enfim, Albano Nunes reproduz precisamente a conduta sectária que afasta tantos activistas, especialmente entre a juventude, das organizações partidárias da classe trabalhadora. Pessoalmente, gostava de saber se ele construiu a sua análise sobre uma participação directa no movimento; se, pelo menos, testemunhou em primeira mão a sua actividade, ou se, pelo contrário, se baseou nos relatos dos mesmos media que começa por atacar.

Para terminar num registo mais optimista, estou consciente que a maioria da base do PCP não partilha do sectarismo de Albano Nunes e que, inclusivamente, nem todos os partidos comunistas são iguais. O Partido Comunista Finlandês (SKP), por exemplo, participou activamente nos protestos da “Primavera Global”, ao lado dos “espontaneistas”. A luta constrói-se com os lutadores que temos, por muitas inconsistências e falta de consciência de classe que possam ter. A vanguarda revolucionária, se pretende ser digna desse nome, deveria apostar no impulsionamento da organização e na elevação da consciência de classe desses sectores, ao invés de os anatematizar como se de inimigos se tratassem.

Albano Nunes não tem apenas falta de pontaria. O homem metralha tudo o que o rodeia.

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