Ainda sobre a Grécia e a política de alianças à esquerda

Perfila-se a possibilidade de mais um governo austeritário no horizonte helénico, graças ao inqualificável oportunismo do DIMAR. Ainda assim, estes últimos dias foram da suma importância para o debate à esquerda, na medida em que nos permitiram perspectivar, ainda que remotamente, a subida ao governo de uma coligação da esquerda anti-troikista.

Mas a relevância das eleições gregas não se restringe a isso. Permitiram-nos reflectir sobre a política de alianças necessária à esquerda, para cumprir a tarefa mais imediata que pesa sobre os ombros dos trabalhadores: o derrube da troika nos países cujo poder político usurpou.

Vou partilhar uma última achega à questão da recusa do KKE em negociar um programa mínimo com o Syriza.

Nos meandros da blogosfera, onde esta questão provocou acesa polémica, fui capaz reunir duas justificações minimamente sérias para aquela conduta, que considerei, e considero, profundamente errada.

Primeiro, um pretenso compromisso que o KKE haveria feito perante os seus eleitores, onde afirmava não se coligar com forças da esquerda “folclórica”. Além de chamar a atenção para o carácter completamente acientífico desta categorização, que impossibilita qualquer debate sério, a principal conclusão que eu tiro da análise do sentido de voto dos gregos é que estes querem um governo de esquerda que ponha um ponto final na austeridade troikista. A prova disso é a subida do Syriza nas mais recentes sondagens, onde figura como o partido mais votado, contrastando com a descida ou a estagnação dos restantes partidos. Na minha opinião, o “compromisso” que os gregos mais valorizam é o compromisso de derrotar a troika, para que a fome, a miséria e o saque ao país termine de vez.

Segundo, afirmam os detractores de uma aliança eleitoral à esquerda, o programa pró-UE do Syriza inviabilizaria qualquer acordo de unidade táctica entre este partido e o KKE.

Sou da opinião de que, no nosso país, tal como na Grécia, a tarefa imediata que se põe à esquerda é o apeamento da troika. Nesse sentido, tendo em conta as condições existentes, penso que tal só será um escopo atingível quando a esquerda anti-troika (PCP e BE) se unir à volta de um programa mínimo que lhe permita assumir uma posição de alternativa de governo e não somente de oposição. Noto que, para o PCP (e para o BE também, pois desenganem-se aqueles que pensam que a direcção bloquista é menos sectária do que a do PCP), como para o KKE, esta unidade táctica exclue-se à priori. Mais que não seja, porque o BE, conquanto transmitindo, “folcloricamente” ou não, um discurso contrário à troika, é, simultaneamente, social-democrata e pró-UE, à semelhança do Syriza.

Sejamos claros, eu não sou social-democrata, não acredito numa reforma interna da UE que a dirija para um caminho mais “social” e menos neoliberal, e muito menos sou um bloquista entusiasta, encontrando-me, no momento actual, bastante mais próximo do PCP do que do BE. Agora, para cumprir a tarefa imediata (parece que isto tem de ser bem enfatizado) de derrotar a troika, é necessária e bem vinda uma unidade táctica entre BE e PCP, tal como entre o Syriza e o KKE na Grécia, por muito pequeno-burgueses, sociais-democratas e pró-UE que os primeiros sejam.

Aliás, esta política de alianças, caso abrisse caminho a um governo de esquerda, iria conduzir a “esquerda radical” do BE e do Syriza a uma contradição intrínseca à sua política pró-UE: não há luta contra o neoliberalismo sem luta contra a Europa do Capital, do mesmo modo que não há luta contra a austeridade sem luta contra a moeda da austeridade, isto é, o Euro. Ao se comprometerem com um programa de governação que rompesse com a troika e com a política neoliberal, as condições iriam desenvolver-se num sentido em que estes partidos teriam invariavelmente de escolher entre manterem-se irredutíveis na luta contra o neoliberalismo de matiz europeia ou capitular perante o desacreditado “sonho europeu”. Num e noutro caso, eram os partidos comunistas que ganhavam, tanto em credibilidade como fidelidade a um programa anti-capitalista.

Aplicar a política de alianças correcta para responder a tarefas políticas concretas. É disto que se trata. Entretanto, vemo-nos nas praças amanhã, dia 12 de Maio, onde a unidade também tem de ser ensaiada. Aqui, o Partido Comunista Finlandês (SKP) irá estar na rua. Espero que os respectivos camaradas portugueses também o façam.

One thought on “Ainda sobre a Grécia e a política de alianças à esquerda

  1. Pingback: Sondagens na Grécia | Sentidos Distintos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s