Da amnésia seletiva

(Publicado no “Praça Alta” de 11 de abril de 2012)

Penso poder afirmar que uma das chaves para a compreensão da política portuguesa contemporânea é o conceito de amnésia seletiva. Trata-se de uma tática retórica, do foro da política da memória, manuseada sobretudo pelos políticos provenientes da direita e do centrão, bem como pelos respetivos préstitos de “tudólogos” e fazedores de opinião.

À direita, deparamo-nos frequentemente com determinados indivíduos, com tendências fascizantes mas de fachada democrática, que almejam escamotear o legado de quase cinco décadas de salazarismo. Geralmente, estes engenheiros da memória esboçam um cenário idílico para esta tenebrosa etapa da história portuguesa, desenhando-a como um período livre de instabilidade, tensões sociais e crises políticas, quando a harmonia social e o superior interesse da Nação imperavam nas decisões governamentais, devidamente inspiradas pelos insondáveis desígnios divinos. No fundo, como uma época de ouro, ao longo da qual a sociedade portuguesa vivia desafogada dos interesses corporativos das várias classes profissionais e da desfaçatez dos partidos e sindicatos. Delineiam uma sociedade, enfim, salva dos constrangimentos inerentes a essa excrescência assaz pesada que responde pelo nome de democracia.

Esquecem, natural e convenientemente, em conformidade com o princípio da amnésia seletiva, outros propósitos governativos transversais à ditadura salazarista: o senil delírio imperialista, incapaz de assimilar as transformações de um mundo em permanente mudança, o ascetismo católico, tão beato como hipócrita, e a política do empobrecimento, que condenou à miséria grande parte da população, desterrando-a para os sofridos trilhos da emigração. Não posso deixar de fazer notar que, no tocante a esta última característica, o salazarismo converge com a linha do atual governo de Passos Coelho.

A engenharia memorialística dos partidos do centrão, PS e PSD, é de um fôlego sensivelmente menor e de um alcance mais imediato. Não se trata tanto de questionar o regime novembrista que nos subjuga, posto que a rememoração do passado geralmente se subordina aos propósitos eleitorais de uns e outros. Uma vez ocupando o devido turno na oposição parlamentar, tanto PSD como PS tendem a “esquecer” a sua quota-parte de responsabilidade pela crise com que nos digladiamos quotidianamente. No momento presente, o múnus da governação cabe ao PSD, enquanto o PS se vê remetido a uma teatralização semi-ritualística de “oposição”. De acordo com a tática retórica da amnésia seletiva, o PS manifesta a sua pontual discordância relativamente a determinadas medidas do governo Passos Coelho (mas subscreve-as sempre que realmente necessário, em coerência com essoutro peregrino conceito de “abstenção violenta”), olvidando, e fazendo-nos olvidar, que as políticas de liberalização do mercado, da precariedade laboral e do desmantelamento do tecido produtivo também foram apanágios dos governos de Soares, Guterres ou Sócrates.

O PSD, por seu lado, relembra-nos constantemente que é a herança deixada pelos governos PS que o compele a empreender políticas tão gravosas para a generalidade dos portugueses, ignorando essa personagem incontornável que é Cavaco Silva, padrinho da terceiro-mundização de Portugal, cuja sombra paira sobre as nossas cabeças desde há longa data. A acrescer a isto, não será, porventura, desnecessário recordar Durão Barroso, autêntico ícone do oportunismo político carreirista, que chegou a ser guindado a sumo-pontífice do austeritarismo de matriz europeia, ou, ainda, Santana Lopes, essa peculiar figura da cena política lusa, simultaneamente ridícula e mórbida?

Para nosso infortúnio, esta manipulação do passado permite a estes partidos revezarem-se no poder ad perpetuum, simulando divergências vazias de conteúdo para aplicarem um programa análogo, num deprimente teatro de sombras mediatizado pelos serviços de comunicação social sob a alçada das elites económicas.

É praticamente consensual para a historiografia contemporânea a asserção que todos os grupos sociais, ao formularem programas de ação em defesa dos seus interesses sectoriais, lhes associam representações do passado concordantes com os mesmos. Aos principais afetados pela injustiça congénita deste sistema impõe-se a construção de uma perspetiva própria do passado recente de Portugal, tão crítica como próxima da realidade, porquanto, assim, ver-se-iam dotados de uma consciência histórica que lhes permitiria não somente vislumbrar o passado com os seus próprios olhos, mas também arquitetar um futuro mais esperançoso.         

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