Da imoralidade na gestão privada das águas e outros recursos naturais

A desculpa-mãe de todas as medidas do governo (“no poupar é que está o ganho”) mobiliza-se mais uma vez e, desta, no sentido da espoliação dos recursos disponíveis.

Há duas frentes de absurdez neste tipo de propostas. Por um lado, do ponto de vista ecológico: pois a cega ignorância destes tecnocratas que acreditam na possibilidade de um “crescimento sustentável” perante recursos finitos leva-nos comprovadamente à destruição desses mesmos recursos. A acoplação de lógicas de lucro à coisa pública é assim duplamente imoral: imoral porque a coisa é pública verdadeiramente, imoral porque o lucro leva à sua destruição. Apontem-me um gestor privado que centre a sua gestão na redução do consumo e do desperdício. Não há.

Por outro lado, a imponência do aparelho legal sobre este assunto é também insultuosa. Em mais um movimento de capitalismo de Estado, a população vê-se coagida legalmente ao consumo do privado, sem hipótese de resposta. Tal acontecerá também na liberalização do mercado energético, mas cada coisa a seu tempo. Nas águas (e falo de experiência própria) qualquer casa vê-se obrigada a instalar um contador e respectivo acesso à rede de àguas (contando que essa distribuição exista nas imediações, claro está), independentemente de essa propriedade possuir ou não a sua própria captação (um poço, normalmente).

Ora, não seria este um problema caso as águas fossem totalmente públicas. Obviamente que havendo uma distribuição colectiva seria egoísta captar um recurso para si próprio, reclamando propriedade sobre uma coisa pública. O problema é que a gestão dos recursos é privada, segundo os planos do governo (tal como já acontece em muitos municípios), e a população é obrigada a assinar sob essa empresa uma parte dos seus ganhos, obrigada a consumir desse serviço.

Serviços privados sustentados no aparelho legal, portanto. Sem hipótese de escolha ou escapatória, o que será a terceira grande imoralidade deste acto. Tal é a liberdade que se vê, hoje em dia, sob capitalismo de Estado. Isto, independentemente do facto de terem sido dinheiros públicos que pagaram a instalação da rede de águas (e outras), sendo a alienação dessa exploração roubo mais do que qualquer outra coisa. Roubo apoiado pelo Estado, uma traição, que outro nome não pode ter (a quarta imoralidade).

E a maior desculpa que arranjam é o balanço das contas. Em nome do guito faz-se tudo, nesta praça.

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