Memória(s) de Salazar

Não tenho problemas em recordar Salazar. Pelo contrário, terminado o período de exorcização que acompanha a queda de qualquer regime, penso que um dos caminhos para compreender a atual situação social, económica e política portuguesa passa, em grande parte, pelo debate do passado salazarista.

Recordemos e debatamos, no entanto, enquadrando a figura de Salazar na realidade que o rodeou, fugindo a tentações de idolatria ou demonização. Recordemos e debatamos não somente o homem oriundo de uma modesta família da Beira, o governante “que governou e nada roubou” (ver foto do epitáfio colocado na casa onde o ditador nasceu) mas também aquele cuja prática política, primeiramente inspirada por Mussolini e oscilando depois entre um bafiento “medievalismo político” e um imperialismo senil, privou Portugal do Welfare State que, por essa Europa fora, os trabalhadores conquistaram a ferro e fogo, ao passo que em Portugal qualquer aspiração política popular, por tímida que fosse, ou qualquer tentativa de organização sindical era impiedosa e prontamente sufocada. Uma prática política que roubou a vida e a esperança a tantos milhares de pessoas. Uma mesquinha política de pobreza e estagnação, enfim, que roubou a uma nação o seu próprio futuro.

Todavia, tal análise pluridimensional não cabe no rótulo de uma garrafa de vinho. Desconfio de todas as tentativas politicamente “desinteressadas” de reabilitar a memória de Salazar, como preconiza o presidente da Junta de Freguesia de Santa Comba Dão. O aparente desinteresse político e o carácter puramente económico de intenções como esta revelam-se, a esmagadora maioria das vezes, a antecâmara para a neutralização da figura de Salazar, como se a sua personalidade fosse tão politicamente inofensiva como a de indivíduos de um passado mais remoto.

Recordemos e debatamos Salazar, portanto, mas estejamos atentos e não caiamos na esparrela da neutralização da “marca” do ditador, para que à impunidade se não some o branqueamento.

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