Estará o feminismo obsoleto?

No início, uma celebração socialista de homenagem à mulher trabalhadora, o 8 de Março é hoje, pelo menos para a grande maioria da população, uma efeméride vazia de significado, uma espécie de variante antecipada do Dia da Mãe, sem que se considere as origens históricas da celebração, muito menos a actualidade que ela comporta nos dias que correm. A maior parte das vezes, são organizados uns jantarinhos, com flores e postais cor de rosa à fartura, onde se elogia a beleza idílica da mulher ou o seu papel insubstituível como mãe, perpetuando as concepções sexistas que, paradoxalmente, investem sobre o Dia da Mulher renovada actualidade. Outras vezes, nomeiam-se os raros exemplos de “sucesso” feminino num mundo ainda marcado pelo machismo, como se as mulheres que ocupam espaços de poder não enveredassem, elas próprias, consciente ou inconscientemente, por práticas de poder inerentemente sexistas.

Enfim, a todos aqueles que queiram celebrar o Dia da Mulher, que só pode ser o Dia da Mulher Explorada, o Dia da Mulher Trabalhadora, encarem a realidade e apercebam-se como o feminismo e a emancipação feminina não são coisas do passado, que merecem ser inocuamente recordadas mas concomitantemente consideradas aspirações obsoletas. Porquê? Simples. Por exemplo, em Portugal, as mulheres recebem, em média, menos 19% que os homens, algo que se reflecte nas pensões, que se vêem assim reduzidas a praticamente metade das dos homens, rendimentos que, na sua maioria, se encontram abaixo do limiar da pobreza; enquanto 7,5% dos homens recebem o miserável Salário Mínimo Nacional, a cifra entre as mulheres chega aos 14,4%; são também as principais afectadas pelo desemprego e pela precariedade do trabalho temporário, além de ocuparem os cargos de trabalho socialmente menos valorizados. Como se não chegasse,temos o fenómeno da “dupla jornada”, trabalhando as mulheres 16h semanais em tarefas domésticas, que não são, naturalmente, remuneradas. Isto sem mencionar outras especificidades próprias da condição feminina que o patronato tenta aproveitar, fazendo uso das veleidades da lei, para precarizar as relações laborais das mulheres e acumular mais capital com menos gastos de trabalho.

É para denunciar este tipo de situações que o Dia da Mulher serve. Para celebrações hipócritas e ocas já nos chega o Dia dos Namorados e afins.

3 thoughts on “Estará o feminismo obsoleto?

  1. Convém relembrar que existem situações em que é favorecido o sexo feminino, inclusivamente pela Lei Portuguesa. Recordo o caso de um amigo meu que, tendo ficado com a tutela do filho foi obrigado não só a dividir os bens com a sua ex-mulher após o divórcio (atingido por desgaste de ambas as partes) como obrigado a pagar-lhe uma pensão de alimentos de valor significativo, ainda que ela tenha bens e rendimentos muito superiores ao dele. Ela, por sua vez, não foi obrigada a comparticipar despesas algumas. Casos como estes são de resto frequentes pois a Lei favorece a mulher independentemente das situações. É certo que estes não são tão úteis quando se fala de feminismo pois interessa perpetuar a imagem da mulher como vítima da sociedade.

    • Não é o meu interesse vitimizar seja quem for, apenas debruçar-me sobre a realidade, apresentando e interpretando dados. Dados que, diga-se, são públicos e pode-os encontrar nos relatórios do Instituto Nacional de Estatística (INE). Decerto que não irá contra-argumentar que o INE também tem como escopo a vitimização feminina…

      Centrei-me na dimensão que, a meu ver, determina todas as outras relações sociais: o mundo laboral. Mais especificamente, refiro-me à situação concreta, material das mulheres, não à estrutura legislativa. Aliás, até porque, como diz o artigo do i, na lei prevalece o primado da igualdade entre os géneros no mercado laboral. Algo que, na prática, não acontece.

      Não podia, num espaço como este, abranger todas as incongruências da lei portuguesa, no tocante à igualdade de género e ao direito da família. O que eu sei é que as estatísticas mostram a regra, o caso que me aponta é um caso isolado, não querendo, ainda assim implicar que seja justo. Contudo, a análise política tem de ser uma análise social, geral, partir da regra e não da excepção.

      P.S: Note-se que adicionei um link para mais uma notícia, desta feita, do jornal Público, que, pelo que parece, também reforça esta “campanha de vitimização” da mulher.

    • Eu diria que me descreve precisamente um caso de vitimização da mulher (ou, se preferir, de discriminação positiva face a uma imagem de mulher-vítima versus homem-providenciador), adicionando à ligação acrítica que muitas vezes se faz entre “mulher” e “mãe”, coisa que já vem de trás e que dificilmente representa favoritismo tanto quanto representa paternalismo institucionalizado.

      Críticas como esta, de resto, sobejam na análise feminista. Aconselho-a a ler um par de coisas.

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