Manifesto Contra os Carros

Há cerca de um mês que me encontro a viver em Lisboa e logo que aqui cheguei o que me saltou mais à vista foi o trânsito caótico e a quantidade de carros absurda que circulam nas ruas. Para os que pensam que vim da “província”, lá de trás dos montes onde o que há mais é calhaus, desengane-se, tinha acabado de chegar  de Leeds, a capital financeira do norte de Inglaterra onde a densidade populacional é bem superior à de Portugal.

O mais evidente na atitude de parte dos condutores portugueses é a forma como desrespeitam o espaço público. Para estas pessoas o carro é extensão do seu domínio doméstico e isso dá direito a fazer praticamente tudo ao volante desde passar vermelhos até estacionar em cima dos passeios (os peões que se amanhem!). Não há respeito pelo espaço que é de todos incluindo os que andam a pé que se vêem obrigados a contornar as inúmeras viaturas estacionadas. Imagine-se que até nos bairros antigos de Lisboa, em ruas estreitas e inclinadas, querem levar o carro.

Além destes “pequenos” incidentes, talvez valha a pena enumerar os enormes malefícios que esta economia capitalista assente na rodovia traz:

1. Ambiente: aqui não são necessárias muitas explicações. As emissões de gases de estufa estão completamente descontroladas e vai ser preciso uma grande catástrofe para que toda a gente se aperceba disso. Não há Quioto que o valhe! É só uma questão de tempo. Qual é um dos principais contribuidores para este estado de coisas?

2. Planeamento urbano: ou se planeia uma cidade para as pessoas ou para os carros. E aqui deve haver um esforço sério e competente das autarquias junto dos cidadãos para que se possam encontrar formas práticas de circulação mas que preservem o espaço público. Por exemplo, por que não definir faixas de trânsito exclusivas para os autocarros de modo a que estes sejam mais rápidos e aliciem os cidadãos a utilizá-los? Já existem algumas medidas dissuasoras da utilização do carro, como o estacionamento pago ou a elevadíssima carga fiscal, mas nem assim parece ser suficiente. Eu propunha o impedimento da circulação de carros nas zonas históricas. Contudo, levanta-se o problema do comércio local que fica refém das grandes superfícies com os seus parques gratuitos enormes. É o que dá deixar construir centros comerciais dentro das cidades.

3. Factura económica tanto a montante como a jusante: é necessário comprar matérias-primas para os combustíveis; é necessário haver estradas para os pôr a andar. E como nós somos um país obcecado com carros, fazemos logo uma montanha de auto-estradas que é para ninguém se queixar com a ajuda das fantásticas parcerias público-privadas que comem tão pouco do Orçamento de Estado. As construtoras ganharam muito com a nossa sede de carros e a nossa miopia para ver a longo prazo.

4. Adeus transportes públicos: mesmo com o preço da gasolina a aumentar desenfreadamente, com a instalação de portagens, ainda não existe um movimento nacional consolidado e verdadeiramente activo de defesa dos transportes públicos urbanos e nacionais sendo, neste último caso, de natureza rodoviária. É certo que estes têm muitos defeitos e estão por vezes estão desadequados as necessidades do dia-a-dia, mas se não forem os utentes a lutar pela qualidade, não vai ser certamente o governo nem os senhores das construtoras civis a melhorá-los.

Julgo que bastam este quatro motivos para se perceber como o carro, esse objecto de culto de tanto cidadão, é actualmente um problema na nossa sociedade. É necessário lutar por outras formas de mobilidade que nos tornam mais saudáveis, mais cientes do espaço público e, mais importante, mais atentos aos problemas económicos que assolam o país. Não se pense que quando escolhemos fazer 30km de carro quando poderíamos fazê-los de comboio (onde ainda existe esta alternativa, claro) é uma opção neutra. Pelo contrário, tem consequências de longo prazo conforme mencionei nos quatro pontos acima.

Está na altura de deixarmos o fetiche pelas viaturas particulares e lutarmos por algo que melhora a nossa qualidade de vida nos centros urbanos e nas deslocações de longo curso. Quem não prefere uma viagem de comboio confortável do que passar não-sei-quantas-horas ao volante sem poder apreciar a paisagem? Eu prefiro e tenho pena que ainda estejamos longe de desmistificar a “independência” que o carro dá.

P.S.: Peço à malta que souber de movimentos cá por Lisboa em defesa dos transportes públicos, agradecia que mo dissessem via comentários. Já sei que há um aqui no meu bairro, mas quantos mais melhor.

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