Krugman dá uma mãozinha

Paul Krugman acha que os salários em Portugal devem descer até 30%. Assim, tal como merceeiro que trata da sua contabilidade quotidiana, Krugman acha que, de forma a cumprir os seus compromissos com os agiotas, Portugal terá de reduzir substancialmente os custos do trabalho, num país em que a redistribuição de riqueza é profundamente desigual e os salários são já miseravelmente baixos.

O pior é que ele tem razão. Se queremos que a dívida seja efectivamente paga não há outra escolha senão empobrecer o país, fazendo uso de palavras anteriormente proferidas por Passos Coelho, especialmente os assalariados do sector público. Por consequência, o presente dilema passa, em grande parte, pela escolha entre o nosso salário ou o pagamento da dívida.

No tocante ao sector privado, as declarações de Krugman servem ainda para fundamentar teoricamente uma intensificação da exploração dos trabalhadores, ou, dito de uma forma mais inócua, reduzir os custos do trabalho, a bem dos lucros do patrão.

O grande capital agradece, mais uma vez, os serviços de Krugman. Não só aventa a solução para o pagamento da dívida e consequente sucção de riqueza em benefício do capital financeiro, a custo dos salários dos trabalhadores do sector público, como ajuda os outros sectores do grande capital a sacar uma valente tachada de mais-valia das costas de quem trabalha. Dois coelhos de uma só cajadada!

Sempre que o capital precisa de uma sustentação teórica para a intensificação da exploração, lá vem o Krugman dar uma mãozinha.

2 thoughts on “Krugman dá uma mãozinha

  1. Não acho, Tiago. Aliás, essa notícia que circulou mostra claramente o enviesamento dos jornais portugueses.

    O post do Krugman é de Maio de 2010 (!) e é a conclusão de um par de abébias que o Krugman tem mandado contra o euro. Concordando-se ou não com ele, é muito errado dizer “Krugman defende a descida dos salários”, quando o que ele disse foi “graças ao euro, os países vão ter que baixar os salários”, em vez de desvalorizar a moeda como fariam antes.

    Quanto ao resto, é aquilo a que os americanos chamam “liberal”. Nesse campo, está tudo dito.

  2. Ele defende que a solução para o euro é a descida dos salários nos países periféricos. Não sei se ele é a favor do projecto da moeda única desde o início ou não e isso interessa-me pouco. O que eu sei é que isto é munição para os liberais europeus. Aliás, já reparaste que desde a subida ao trono do Passos Coelho os rendimentos anuais dos trabalhadores do sector público em Portugal desceram precisamente cerca de 30%? O que Krugman e companhia fazem é fornecer sustentação teórica para este género de prática política. Quanto ao resto, basta ler e estar atento às sucessivas tomadas de posição do Krugman. Para bom entendedor, meia palavra basta.

    A nossa posição deve ser combater no campo teórico este tipo de posições, não escamoteá-las.

    Edit: Seja como for, tenho de concordar contigo numa coisa: a imprensa portuguesa descontextualiza completamente o texto do douto Krugman.

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