Eleições presidenciais na Finlândia: uma breve análise

Fazer uma análise das eleições presidenciais finlandesas é uma tarefa duplamente difícil para mim. Primeiro, pelos obstáculos relacionados com a própria língua finlandesa. Segundo, a realidade sociopolítica tem pouco a ver com a portuguesa, pelo que a ótica de análise tem de se ajustar, de alguma forma, a uma realidade dissemelhante da que é habitual para mim.

Antes de mais, releve-se que as tensões sociais na Finlândia são claramente mais apagadas quando comparadas com um país como Portugal. A construção de um pujante tecido industrial no pós-guerra potenciou o desenvolvimento de um capitalismo de ponta, que permitiu a expansão da economia finlandesa, não somente durante o período do pós-guerra, mas até há relativamente pouco tempo. A expansão económica levou a uma considerável acumulação de capital que, por sua vez, deu margem de manobra para a estruturação de um forte Estado Social, uma autêntica almofada para a conflitualidade social, cujo desmantelamento começa a ser planeado por parte da elite económica do país.

O cenário de aparente “paz social” é particularmente visível no plano partidário. A título de exemplo, refira-se que o governo finlandês é formado por uma ampla coligação que abarca a direita liberal, com o seu partido Coligação Nacional, até à Aliança de Esquerda (mais ou menos, o BE cá do sítio). Pelo caminho, encontramos o Partido Social Democrata, a Aliança Verde, os Cristãos-Democratas e o Partido do Povo Sueco. A direita liberal foi forçada, depois da recusa dos Verdadeiros Finlandeses em apoiar a “ajuda” da Troika a Portugal, a formar governo com o centro-esquerda e com a esquerda, o que permitiu neutralizar, até determinado ponto, alguns dos pontos mais liberais do programa da Coligação Nacional. É uma realidade completamente díspar da portuguesa, portanto, onde a mais tímida reforma de teor social teria necessariamente de pôr em causa os alicerces da economia e da propriedade capitalista, motivando, desde logo, a oposição dos partidos do arco do poder.

Os partidos com maior implantação social apresentaram os seus candidatos próprios para a corrida eleitoral: a extrema-direita dos Verdadeiros Finlandeses avançou o seu candidato natural, Timo Soini; dos Cristãos-Democratas, Sari Essayah; o Partido do Centro, partido de direita tradicionalmente vinculado ao sector camponês da população, apresentou Paavo Väyrynen; da Coligação Nacional, Sauli Niinistö; do Partido Social Democrata, Paavo Lipponen, um “dinossauro” da política finlandesa e representante da ala direita do partido; da Aliança Verde, Pekka Haavisto; da Aliança de Esquerda, Paavo Ärhinmäki; o Partido do Povo Sueco, por seu lado, suporte político tradicional da minoria sueca do país, apoiou, como sua candidata, Eva Biaudet, a atual Alta-Comissária para as Minorias Nacionais.

Tal como acontece por toda a Europa, pesem as especificidades conjunturais ou estruturais finlandesas, o combate mais imediato passa, em grande parte, pela necessidade de derrotar o neoliberalismo, tendo em conta que a Finlândia é regida por um sistema “semi-presidencialista”, se assim o podemos definir, bastante à semelhança de Portugal. As sondagens indicam que o candidato da Coligação Nacional, Niinistö, lidera a votação, ainda que tenha de disputar uma segunda volta com Pekka Haavisto, candidato da Aliança Verde. Niinistö tem usado como cavalo de batalha, na sua campanha, a sua intenção de limitar o direito à greve, o que reflete o receio, por parte da burguesia finlandesa, que a conflitualidade social alastre ao “paraíso” social-democrata escandinavo. Na minha opinião, o apoio dos trabalhadores conscientes deveria incidir sobre o candidato da Aliança de Esquerda, Ärhinmäki, visto que, conquanto sendo representante da “social-democracia de esquerda”, que encontra no BE o seu congénere português, apresenta um programa social e é objeto da confiança de parte do movimento sindical finlandês. Não sendo uma alternativa extra-sistémica ou revolucionária, a Aliança Verde propõe uma alternativa de esquerda ao neoliberalismo. Merece um apoio crítico, na medida em que as suas propostas, em grande medida, resumem-se a uma “moralização” do capitalismo, tal como as do BE, mas a ausência de uma alternativa simultaneamente socialista e revolucionária não deixa grandes alternativas de voto.

Saberemos amanhã qual o resultado da primeira volta.

2 thoughts on “Eleições presidenciais na Finlândia: uma breve análise

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