Fuga de uma pátria em escombros

*Publicado no Praça Alta de 13 de dezembro de 2011.

Desde que me lembro de ser, Portugal vive em crise. Digo isto sem qualquer tipo de ironia. Desde criança, muito antes de acordar para a política, ouço dizer que o nosso país atravessa uma crise. Se o sistema económico atual, no plano global, é caracterizado pela recorrência de crises cíclicas, é apenas natural que nas franjas periféricas desse mesmo sistema, posição para onde o nosso país se vê relegado, esse carácter cíclico assuma uma periodicidade quase permanente. De permeio, lá vinham umas tímidas retomas que até nos permitiam comprar um carrito em segunda mão e um televisor, aqueles itens de luxo desmedido, que estão bem acima das nossas possibilidades e trouxeram a crise que agora se instala, segundo a propaganda desavergonhada dos nossos capatazes.

No entanto, apesar de, como bom português, estar relativamente bem habituado às crises e às vicissitudes delas decorrentes, temo que tenhamos chegado a um ponto de rutura: aquilo a que assistimos hoje não é somente mais uma crise, é uma autêntica hecatombe. A resposta governativa a esta situação? O costumeiro neo-liberalismo: privatize-se, venda-se, despeça-se, faça-se os escravos trabalhar mais, reduza-se proventos, salários e subsídios, isto é, destrua-se aquela coisa incómoda que dá pelo nome de Estado Social, abominável e obsoleto Adamastor, tão odiado pelo CDS/PP e PSD. Tudo isto, “a Bem da Nação”, como agora despudoradamente se voltou a dizer, ou seja, a bem do capital financeiro, nacional e estrangeiro, que é salvo através de recapitalizações sucessivas e do pagamento de uma dívida pública que de “pública” tem pouco.

Os efeitos da política do empobrecimento são sentidos de forma transgeracional, como é sabido, mas não tenho dúvida que a faixa etária na qual me insiro sofre as consequências da crise de uma forma particular. Face a isto, tenho de dar a mão à palmatória: o Governo da Nação assumiu uma postura realista frente à condição preocupante dos nossos jovens, como se viu pelas declarações do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Alexandre Mestre, e do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, que aconselham a juventude a emigrar. É isso mesmo, leu bem. O Governo assume a sua miserável gestão de uma situação não menos miserável e aconselha os jovens a porem-se a milhas. “Vá, desandem, que daqui não levam nada”, dizem eles. Para rematar, ainda tentam, fazendo uso de artifícios retóricos absolutamente patéticos, disfarçar a realidade e pintar a escolha dos jovens portugueses de emigrar como uma coisa “positiva”, “benéfica” ou “natural”, ou seja, assim uma “cena bué da fixe”, usando uma terminologia bem jovem.

Como disse, aplaudo a capacidade de análise do Governo, marcada por um frio realismo. Realmente, daqui não levamos nada, a continuarem estas políticas. A casa está a arder e a solução que os bombeiros desencantaram é verter mais gasolina para o fogo. É isso que enfrentam os milhares de jovens que se veem obrigados a emigrar. Não o fazem porque queiram abandonar o seu país, a sua família, a sua “zona de conforto”. Fogem de uma pátria em escombros, governada por uma quadrilha de loucos. Também engrossarei esta fila de expatriados, para o bem e para o mal. Fujo de uma pátria em escombros, mas que ainda espero ver renascer das cinzas, quando o Povo decidir voltar a tomar a História nas suas mãos.

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