Mas que raio se passa na Hungria?!

Não é novidade que a Hungria é governada por um partido de lunáticos de extrema-direita há já algum tempo, mas hoje deparei com duas notícias que me fizeram saltar da cadeira.

Primeiro, o governo do partido Fidesz (mais ou menos, o CDS-PP lá do sítio), liderado pelo primeiro-ministro Victor Urban, criminalizou a população sem-abrigo. Precisamente. Quem for apanhado a dormir duas vezes na rua, tem de pagar 480 mocas de coima (toda a gente sabe que, geralmente, os sem-abrigo dormem com umas centenas de euros debaixo do papelão que lhes serve de colchão) ou passar dois meses na cadeia, onde tem de cumprir trabalhos forçados. O governo de Urban apresenta como solução para a pobreza a punição criminal dos pobres. Gostava de poder ironizar com isto, mas o surrealismo inerente à situação impede-me de tal. Simplesmente, não tenho palavras.

Depois desta pérola, deparei com outra, relativa à futura Constituição húngara. Bastaria dizer que é capaz de ser o texto jurídico mais retrógrado que a Europa democrática alguma vez viu: estabelece a ilegalidade do aborto e do casamento homossexual, permite que um pai de uma família numerosa vote por cada um dos seus filhos menores (que é isto, meu deus?!!!) e guinda o cristianismo ao lugar de quinta-essência da identidade nacional húngara. Enfim, tudo isto seria mais do que suficiente para arrancar uns quantos palavrões de repúdio a qualquer democrata que se preze.

Mas, como medievalista que sou, achei particularmente fascinante o Preâmbulo do dito texto constitucional. Neste intróito, é afirmado que “Estamos orgulhosos de que o nosso rei Santo Estêvão tenha criado a Hungria com alicerces fortes há mil anos tenha tornado o nosso país membro da Europa cristã”.

Delicioso! Senti que estava a desfolhar um ancestral texto como a Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques de Duarte Galvão ou as Chronicas dos Senhores Reis de Portugal de Cristóvão Rodrigues de Acenheiro (autor que defendia, note-se, que o Rei Santo Estêvão era o avô do nosso Afonso Henriques). Existe, no entanto, um pequeno senão: estas narrativas foram compiladas no século XVI, que parece ser a centúria em que a Hungria irá acordar, no dia 1 de Janeiro de 2012.

Como disse, gostava de brincar e ironizar mais com a situação, mas não consigo. Não consigo arranjar palavras para esta monstruosidade de texto, que será a lei-base de um país com mais de 10 milhões de habitantes.

3 thoughts on “Mas que raio se passa na Hungria?!

  1. Pingback: Notas e notícias da semana | Sentidos Distintos

  2. Na. Verdade, que diferencas existen entre este lunatico e o regime sovietico? Lunatico é comparar o CDS com o regime hungaro, ele existe cada caviarzinho….

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s