No rescaldo da Greve Geral

Escrevo na ressaca de uma das maiores greves gerais de sempre no nosso país, quando mais de 3 milhões de portugueses fincaram o pé à injustiça da austeridade e gritaram a plenos pulmões que existe uma alternativa à política do empobrecimento. Uma política de crescimento que ponha a economia ao serviço da maioria da população. Uma política que ponha o capital financeiro de joelhos e lhe mostre que a soberania deve ser popular.

O nervosismo das forças da autoridade, que fizeram questão de pressionar e reprimir os trabalhadores nos piquetes de greve e na manifestação da capital, reflecte bem o quão vitoriosa foi esta greve. Também as demonstrações de solidariedade internacionalista, vindas da Galiza, do País Basco ou da Grécia, mostram que os elos da cadeia se começam a unir e que o cenário, há pouco tempo tão improvável, de uma greve geral europeia se devia começar a pôr na mesa.

Por outro lado, esta greve confirmou (se ainda fosse necessária confirmação) a falência do PS como alternativa de esquerda ao neo-liberalismo. A abstenção no parlamento, ao votar-se o orçamento de estado, teve a correlativa abstenção na rua, ao demarcar-se da greve geral, muito embora a “sua” UGT fosse pressionada a apoiar este protesto. Como “partido responsável”, lacaio do capital financeiro, o PS teve de provar aos seus capatazes que não alinha nestas esquerdalhadas.

A luta tem forçosamente de continuar, pois, apesar de terem levado um valente chuto no rabo, Passos, Gaspar, Álvaro e restante quadrilha não desistirão de aplicar o seu programa de miséria. Temos de lhes responder com mais protesto, união e organização. Um primeiro passo seria quebrar o sectarismo que divide o movimento sindical do “espontâneo”. O ataque vai se intensificar, a luta terá necessariamente de se radicalizar e, nesse momento, a esquerda, os sindicatos e os movimentos espontâneos de protesto terão de dialogar e avançar propostas políticas. Veja-se como há poucos meses estes movimentos não tinham um programa político minimamente consistente e, agora, trazem para a discussão propostas progressivas como a suspensão do pagamento e auditoria à dívida pública, ou, ainda, a nacionalização da banca.

O movimento de contestação cresce, politiza-se e enrijece paulatinamente. É assim que deve ser. Seria bom que a recíproca desconfiança entre estes dois “mundos”, o dos “indignados” e o da CGTP, desse lugar a um diálogo fraterno e convergência na acção.

No plano político, é que ainda há muito caminho a percorrer e está por construir a alternativa anti-capitalista que ponha em cheque este regime oligárquico. Mas isso é outra história…

P.S: Gostava, ainda, de chamar a atenção para a situação de centenas de milhar ou mesmo milhões de trabalhadores que vêem o seu direito à greve completamente invalidado. Os trabalhadores precários ou os imigrantes, com contratos de trabalho a termo, recibos verdes, ou, mesmo sem qualquer tipo de contrato legal, que, conquanto a lei lhes garanta o direito à greve, não o podem exercer de facto, graças à pressão dos seus patrões. Quantas pessoas conhecemos que, estando a trabalhar a recibos verdes ou com contrato a termo, iriam para o olho da rua, caso tivessem a desfaçatez de alinhar com a greve geral? É apenas mais um dos efeitos nefastos da precariedade sobre os direitos adquiridos da classe trabalhadora, e o patronato está bem consciente disso. Sem precariedade, não tenho a mínima dúvida que a paralisação seria ainda mais esmagadora.   

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