Independência?

Antes de desenvolver o meu raciocínio, permitam-me clarificar uma premissa inicial: eu não apoio a proposta de “independência” da Palestina apresentada aos órgãos da ONU pelo líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. Admito que quem costume ler este blogue possa estar um pouco surpreendido com esta afirmação, posto que muitos dos meus textos lidam precisamente com o conflito israelo-palestiniano, de um ponto de vista pro-palestiniano, como seria de esperar.

O fundamento para a minha posição é muito simples: a realizar-se a proposta de Abbas, não assistiremos à emergência de um estado de pleno direito, mas tão-só ao nascimento de mais um bantustão, à semelhança dos existentes na África do Sul do Apartheid. As intenções de Abbas não vão além do que era já estabelecido nos Acordos de Oslo, que são, só por si, um impedimento à libertação efectiva do povo palestiniano. Esta solução não resolve os anseios de liberdade e independência dos palestinianos.

Segundo Abbas e os defensores da chamada “solução dos dois estados”, a Palestina “independente” limitar-se-ia aos territórios da Cis-Jordânia e Gaza. Ao sustentar esta solução política, devemos tentar, no mínimo, perceber o que estamos, realmente, a defender. 54% dos territórios da Cis-Jordânia são ocupados por colónias israelitas, entrecortados por mais de 642 checkpoints militares. O estado “independente” da Palestina ocuparia, segundo a perspectiva dos “dois estados”, cerca de 20% da Palestina histórica. Por outras palavras, negaria aos milhões de refugiados palestinianos o direito ao retorno, não resolveria os problemas da população árabe de Israel, que sofre na pele a repressão de uma nação que faz do racismo a sua raison d’être, e criaria um estado sem soberania fronteiriça, militar, energética, muito menos lhe garantindo o controlo das suas reservas de água. Enfim, originaria um monstruoso gueto, nominalmente independente, mas completamente subordinado à suserania israelita. Ora, o que é isto senão a prorrogação dos injustos Acordos de Oslo?

De qualquer forma, não perco muito do meu sono com este problema, pois está mais do que visto que o “humanista” Obama nunca aprovaria a proposta de Abbas sem o assentimento de Israel. Além do mais, não será dos corredores da ONU que advirá a emancipação palestiniana. Gostemos ou não, esta terá que sair do cano de uma arma, Intifada após Intifada, até Israel ser dobrado pela força. Enquanto se não resolver este problema primacial, propostas como a de Abbas servirão somente para atrofiar a enorme onda de solidariedade pro-palestiniana, decorrente do genocídio de 2008-2009 em Gaza e do ataque à flotilha, em 2010.

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