A boca do lobo

De acordo com o Jornal de Negócios, o governo irá avançar com “incentivos ao emprego”. Então vejamos qual é o caminho destes bem-intencionados.

A coisa mais gritante é, sem dúvida, o facto de o governo se propor a pagar 420 dos 485 euros que compõem o salário mínimo para incentivar empregadores a contratar. Isto assim, dito de uma assentada, até nos deixa de olhos esbugalhados. O quê? Então… então o que é que aconteceu ao Estado despesista e obeso que nada poderia fazer que não fosse cortar em despesa? O mesmo governo que promete despedimentos em massa, cortes em serviços essenciais e privatização dos recursos-base de repente tem dinheiro para contratar?

…não. O dinheiro é para dar de mão-beijada a empresas. E antes de me virem agitar a puída bandeira das PME’s peço que prestem atenção aos seis meses de período máximo para o fundo (qualquer pequena empresa que precise – sim, precisa – de ajuda monetária para contratar não há-de ver o seu problema miraculosamente resolvido ao fim desse tempo). Depois destes seis meses… rua! Bota para o fundo de desemprego outra vez e toca a girar a roleta até te cair outro emprego na rifa.

Há melhor! diria Pedro Mota Soares, pois as empresas que fazem a contratação (e pagarão apenas 65€ do dito ordenado) ficam ainda encarregues de pagar 115 euros à segurança social para ajudar o trabalhador. Isto, claro, apenas se este estiver desempregado há menos de um ano. Tiveste mais de um ano sem trabalhar? Vai-te foder que pagas tu a segurança social, desavergonhado. Já cá faltava o cunho moral, sim senhora.

Mas, para dar a tradicional cereja no bolo do desemprego, ainda nos dizem que, e passo a citar, o “programa de incentivos é voluntário mas se estiver em causa um emprego conveniente, o desempregado não pode recusá-lo, sob pena de perder o subsídio de desemprego”. Ou seja, é voluntário a não ser que te obriguem, aí vais trabalhar ou vais pró RSI (independentemente, ao que parece, de estares a receber um subsídio de desemprego para o qual descontaste) e no RSI prepara-te que tens que trabalhar à mesma, só que desta vez é sem contrato. Finalmente, le coup de grâce, isto só se estende a 35 mil pessoas entre as 310 mil em fundo de desemprego, portanto segura-te bem pode ser que te caia a lotaria do ordenado mínimo.

Ah, e não é preciso agradecer. Nós sabemos o quão gratificante é a generosidade dos 500€ por mês.

5 thoughts on “A boca do lobo

  1. Realmente..se isto é uma medida de estimulo a economia..,,,,.Apesar desta medida não ser novidade, pois tinha sido debatida durante a campanha eleitoral. Esta medida parece um estímulo à estagnação. Ontem Jerónimo de Sousa comentou o conselho de estado. Mas o seu silêncio tem sido incómodo.

  2. A meu ver a CGTP (que é como quem diz, o PCP), nos últimos tempos, incorporou as demandas dos precários no seu ideário reivindicativo. O problema é que não encorajam nem um pouco a organização desses sectores. A organização burocrática, extremamente sectorial, da CGTP é um obstáculo a isso mesmo. Da minha parte, há muito que deveria existir um cartão de sindicalizado na CGTP, sem ser necessário estar vinculado a nenhum sindicato sectorial. Conheço uma mão cheia de casos de pessoal que trabalhou em empresas, através de outras empresas de trabalho temporário, sindicalizaram-se, e, quando o período de trabalho na primeira empresa terminou, o sindicato telefona a pedir a devolução do cartão de sócio. O que é isto senão impulsionar a “des-sindicalização”?

  3. Se é assim, estão também a impedir a entrada a pessoas com empregos mais desvinculados como no caso de freelancers ou artistas.

    Agora no Porto conversei com alguns participantes e essa noção rígida do sindicato é também muito voluntária. Há uma certa ideia de que se não fosse assim, o sindicato se desintegraria. Foi gritante a subdivisão do protesto em pequenos grupos sindicais, cada um com a sua faixa, tanto que tinhas grupos isolados do resto da manifestação que incluíam oito ou nove pessoas e parece-me que essa divisão é consequência directa dessa sectorialização de que falas. No entanto, os participantes com que falei não conceberiam a organização de qualquer outra forma (e digamos que marchar em procissão atrás de um autocarro repetindo maquinalmente palavras de ordem vazias é apenas cansativo, sem que se identificasse ali um autêntico movimento de luta).

    Isto não só é pouco saudável para a fluidez interna do sindicato (aí está o caso de que falaste como bom exemplo) como para a própria imagem pública da CGTP. Especialmente nesta altura em que cada vez mais se ouve pessoas a disparatar contra “os sindicatos”, o que representa tanto o descontentamento de quem não se revê nesta organização como também um retorno à moral fascista de que as organizações de trabalhadores são indesejáveis…

    Tenho alguma confiança na capacidade adaptativa da CGTP, apesar de tudo. Não confio tanto é na sua rapidez e isso é o que mais me assusta.

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