Da elite magnânima e a sua reacção à austeridade

Não é inocente que milionários se comecem a insurgir contra a desproporcionalidade na aplicação de medidas austeras pelo Estado. Também não acredito que parta de uma nova deriva humanista: antes, as próprias elites se apercebem daquilo que os políticos ignoram.

Certamente, como argumenta a sociologia, muito mais compõe a estrutura do poder numa sociedade do que a distribuição dos recursos. A cultura não se define assim, é certo; nem pela organização horizontal entre quem detém os meios de produção e quem é detido por estes se responde à hierarquização vertical das relações sociais; e claro, o marxismo em si e apenas por si só não nos levará assim tão longe.

No entanto, aquilo que observamos obriga-nos a um ponto pragmático: nas últimas décadas o capitalismo investiu para a sociedade e em força, assentando-se como a pauta base das relações sociais e económicas assim como motor e objectivo final de todos os problemas que surgem. Os nossos políticos, versadíssimos na mui nobre arte do bem angariar votos e lustrar sapatos, ignoram a simples mas brutal evidência daquilo que é material – e, nesse sentido, incontornável! – enquanto avançam a agenda do seu próprio umbigo e passam um par de adendas morais à lei de acordo com aquilo que deixará os seus eleitores dormir em paz e, enquanto o fazem, vão usurpando o chão a quem lá tinha os pés, lenta mas progressivamente despindo a população de qualquer controlo sobre as suas vidas e o seu próprio trabalho.

Assim eu compreendo a aparentemente paradoxal reacção dos multimilionários que se começam a levantar contra os mimos que recebem e a exigir serem tratados como os outros cidadãos.  Não é, ao mesmo tempo, à toa que a igreja se manifeste contra a organização de quem protesta. Bom senso? Sim, é bom senso: pois eles, que não são idiotas, sabem perfeitamente que num mundo em que poucos detêm tudo e o resto obedece, o único caminho a percorrer é o caminho da luta de classes e eles sabem também que serão os primeiros alvos.

Pois… no fim de contas, não é que o desgraçado do Marx tinha razão?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s