O que seria de nós sem o Outro?

Todas as classes dominantes necessitam do fenómeno da alteridade para firmar o seu poder. Seja para justificar impulsões expansionistas, promover a exploração dentro das suas fronteiras nacionais ou, simplesmente, para arranjar um bode expiatório conveniente para escamotear a borrada que dado governo levou a efeito.

Teríamos centenas de exemplos para cada uma destas situações, porém, quem não recordará as recentes invasões do Iraque e Afeganistão, legitimadas, no plano ideológico, pela guerra contra o terrorismo? A empresa não rendeu aos senhores do mundo o que eles expectavam, mas o que conta é a intenção.  Quanto às outras duas proposições, o que se passa na Europa dos dias de hoje comprova a sua veracidade, escusando-nos de recorrer a grandes artifícios retóricos.

Uma onda de xenofobia varre a Europa. O caso Breivik demonstrou que a extrema-direita está organizada e é perigosa. Quantos de nós não assistem quotidianamente a comentários como “a culpa da falta de emprego é dos romenos e dos pretos” ou “é óbvio que a imigração é um dos motivos para a ascensão da criminalidade”? Quantos de nós não se confrontou com aquela hostilidade para com os povos árabes, uma adversidade quase que “natural”, a maior parte das vezes até maquilhada com preceitos “democráticos”?

Esta mentalidade, tal acontecia outrora, é inculcada pelo poder instituído, veja-se as recentes medidas para a imigração do governo francês e dos seus análogos espanhóis ou gregos, sem sequer mencionar a política dos campos de concentração na Itália. O problema é que estas concepções se estão a enraizar no tecido social de modo indelével, algo que deve preocupar todos os que ainda não desistiram de lutar por uma sociedade mais justa.

Estas medidas servem apenas os interesses dos governos e dos patrões, por isso eles espalham este veneno ideológico sobre a população e permitem à extrema-direita participar no jogo democrático. Eles precisam de inimigos públicos para justificar à priori futuras guerras do petróleo, como acontece na Líbia. Eles precisam de aplicar leis de imigração mais estritas, para que haja um exército de imigrantes ilegais sempre disponível para trabalhar que nem escravos por um salário de miséria e sem os mais básicos direitos laborais que lhes deveriam assistir. Por fim, os governos necessitam de estigmatizar as comunidades de imigrantes no território sob a sua alçada, pois aqueles carecem amiúde de uma peneira que cubra o seu próprio fracasso. Afinal, é útil ter alguém que seja responsabilizado pela altíssima taxa de desemprego, a tal “marca de uma governação falhada”, não é?

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